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Toguênkyo - Parte Final
 

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

Antigamente no Japão havia muitos vendedores ambulantes que levavam os produtos até as mais distantes aldeias. Certa ocasião um desses vendedores acabou encontrando um local muito bonito.

- “Nossa, isso parece o Toguenkyô, o Paraíso Terrestre! Devo estar sonhando” - disse maravilhado. Surgiram então quatro lindas garotas que cercaram o moço que deitara na relva.

As moças moravam num enorme palácio com a mãe, a senhora Shizen, que o convidou a passar a noite lá. Na manhã seguinte dona Shizen fez uma surpreendente proposta ao vendedor.

- O senhor já deve ter percebido que neste palacete só vivem mulheres. Eu e minhas quatro filhas: Haruko, Natsuko, Akiko e Fuyuko. Gostaria que ficasse a vontade pelo tempo que quiser. Mais que isso, gostaria que casasse com uma das minhas filhas.

O jovem que sempre foi uma pessoa pobre e solitária aceitou na hora.

Sua vida mudou completamente. Era feliz. Vivia um sonho. Numa manhã dona Shizen anunciou que iria ao Hanami (ritual de apreciação das flores de cerejeiras), e pediu para que ele ficasse tomando conta do palácio. Antes de sair, porém, só fez uma recomendação: “Se ficar entediado de ficar sozinho, pode abrir e espiar um pouco, três dos quatro portões que existem salão principal, para se distrair. Porém o quarto portão você não deve abrir em hipótese alguma. Não está autorizado. Promete que não vai abrir?”.

- De jeito nenhum.

No palacete Shizen havia um salão central onde haviam quatro portões fechados. O rapaz sempre teve curiosidade em saber o que haveria por atrás daqueles portões, porém como lhe haviam dito para não abrir, nunca tinha feito. Agora, pela primeira vez a dona da casa tinha autorizado que ele abrisse pelo menos três dos quatro portões. Sua curiosidade foi aguçada. Então se dirigiu ao salão central do palacete e abriu o primeiro portão.

O primeiro impacto foi um enorme clarão. Depois, as vistas foram acostumando e percebeu nitidamente uma paisagem de praia. O mar estava azul como só acontece no verão e uma brisa suave soprou amenizando o calor. O rapaz ficou admirando a paisagem durante alguns minutos, teve vontade de caminhar descalço pela praia, mas a curiosidade de ver o que existe atrás de outros portões o deteve. Fechou o primeiro portão e abriu o segundo.

Novamente um enorme clarão e as vista foram acostumando e o moço pode vislumbrar uma maravilhosa paisagem de outono. As folhas de momiji (acer) tingidas de amarelo-avermelhado cobriam matas e montanhas apresentando um cenário outonal de incrível beleza.

- Dá vontade de escrever uma poesia, pintar um quadro, plantar um bonsai! Pensou o rapaz.

Pouco depois, quando abriu a terceira porta, deparou com uma branca paisagem de neve que cobria campos, rios e montanhas. Apesar do frio invernal havia ali, uma vista de incrível beleza. Sendo aquele o último portão que ele estava autorizado a abrir, pensou em ficar mais tempo apreciando os flocos de neve que caiam mansamente. Porém como a proibição é a mãe da curiosidade, num impulso rápido, o moço fechou o terceiro portão e se dirigiu diante do quarto portão.

Vacilou por um momento ao lembrar as palavras de dona Shizen que o proibiu veementemente de abrir aquele portão. O moço até sabia o encontraria ali. Estava começando a entender que atrás de cada portão estava a alma de cada uma das filhas de Shizen (Natureza): Haruko (Filha Primavera), Natsuko (Filha Verão), Akiko (Filha Inverno) e Fuyuko (Filha Inverno). Entendeu porque mesmo abrindo o portão de três delas, apreciando a beleza da alma delas, nelas não permaneceu. Ele havia casado com Haruko, cujo portão não lhe fora autorizado abrir.

Com a mão tremendo na maçaneta, o jovem lutou consigo mesmo e foi vencido pela curiosidade. Abriu o quarto portão. Após um intenso clarão, tornou visível a paisagem que já esperava encontrar. Cerejeiras cobertas de flores e cantos de rouxinóis. Era uma visão maravilhosa, idêntica a de quando ele ali chegou, após estar perdido no bambuzal.

Ele adentrou a paisagem e os rouxinóis param de cantar. Em seguida saíram voando e o moço pode ver que eram quatro os pássaros que antes estavam cantando. Lamentou que as aves tivessem se retirado e nesse momento ouviu a voz da senhora Shizen, que vinha de algum lugar da bela paisagem:

- Vejo que você escolheu o caminho de volta a sua aldeia.

- Eu não quero voltar para minha aldeia. Quero ficar no palacete Toguenkyo. Respondeu o Rapaz.

- Ao adentrar aquele portão você caminhou em direção contrária de onde veio, portanto está caminhando de volta para sua aldeia. Nós gostaríamos que você ficasse em Toguenkyô, por isso aconselhamos a não abrir o quarto portão. Porém você quebrou a promessa e escolheu o caminho de volta. A escolha foi sua por isso nada podemos fazer agora.

- Por favor, gostaria pelo menos de saber quem são vocês. Implorou o rapaz.

- Sou o espírito da mata, das montanhas, dos seres vivos e dos fenômenos naturais. Minhas filhas são espíritos das estações do ano que transformadas em rouxinóis vem anualmente na cantar primavera, em louvor as cerejeiras. Como você não cumpriu o prometido, e as viu em forma de rouxinol, quebrou o encanto. Para você o sonho acabou. Adeus.

No instante seguinte a bela paisagem primaveril desapareceu por completo e o vendedor estava numa clareira de um bambuzal. Era uma paisagem melancólica, o vendedor sozinho com sua pesada caixa de mercadoria nas costas.

 
Adaptação livre de Claudio Seto

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