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Arquivo NippoBrasil - Edição 115 - 2 a 15 de agosto de 2001
 
Ushikata to Yamauba - Parte Final
O vaqueiro e a bruxa da floresta
 

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

 

O MOTI QUE DESAPARECEU
Por cúmulo do azar, a cabana onde o Ushikata havia se refugiado para se proteger de Yamauba era dela própria.

- Pretendia conseguir ajuda nesta cabana, porém, a situação está pior do que antes. Estou terminantemente perdido, pensou Ushikata juntando as palmas das mãos e rezando para todos os deuses e a todos os budas, pedindo salvação.

- Sei que estou perdido, pelo menos salvem minha alma.
A bruxa, sem saber que sua vítima estava sobre sua cabeça, sentou-se à beira do irori (braseiro no meio da sala) e começou a assar vários motis (bolinho de arroz glutinoso).

- Estou com fome, asse logo, motizinho. Dizendo isso, a bruxa ficou aguardando os motis ficarem no ponto. Nisso, começou a sentir uma sonolência e cochilou.
No alto da casa, entre as vigas, Ushikata estava com a barriga roncando de fome.

- Ora, ora, a Bruxa adormeceu. Acho que vou me servir de um moti, pensou o vaqueiro, puxando uma taquara comprida do telhado e espetou um bolinho de arroz do fogareiro. Como estava com muita fome, o moti lhe pareceu especialmente gostoso. Não resistindo, espetou outro e, em seguida, outro. E assim, sucessivamente, acabou comendo todos os motis da velha bruxa.

Pouco depois, a Yamauba despertou. Pensou em comer os motis que deviam estar bem assados, porém, notou que haviam desaparecido.
- Ué, os motis sumiram!

Começou a fuçar no meio da cinza, mas nada de encontrar os bolinhos.
- Que coisa estranha. Será que enquanto eu cochilava o texugo do bambuzal levou meus motis embora? Não, isso é impossível. O texugo e a raposa me obedecem cegamente, não teriam coragem de me roubar. Mas então quem foi que me roubou? Yamauba se levantou e foi verificar todos os cantos da casa. Andando de um lado para o outro foi ficando nervosa.

-Quem está aí? Tem alguém em minha casa?
O vaqueiro, que escondido na viga do telhado tinha saboreado os gostosos motis, fez uma voz fina, imitando o vento e disse:

- Quem comeu foi o Deus do Fogo, foi o Deus do Fogo.
- Ah, se foi o Deus do Fogo, não posso fazer nada, disse a bruxa conformada.

Lá fora, uma enorme lua iluminava a noite. Yamamba trouxe um caldeirão e colocou-o no fogo dizendo:
- Estou com fome, acho que vou preparar um amazake (saquê adocicado que se bebe quente) e beber.

Daí começou a preparar o saquê doce, dissolvendo bagaço de arroz fermentado na água quente. Enquanto esperava o líquido ferver, começou a cochilar, balançando a cabeça para frente e para trás.

Como comeu muito moti, o vaqueiro começou a sentir a garganta seca. Olhando para baixo viu que a bruxa estava novamente cochilando. Nisso, o vapor que subia do caldeirão espalhou o gostoso aroma de amazake no ar.

- Acho que vou me servir desse amazake.
Novamente pegou do telhado uma vara de taquara comprida e abaixou a ponta para dentro do caldeirão. Lá de cima começou a sugar na outra ponta e foi tomando todo o conteúdo, que estava uma delícia.

DERROTANDO YAMAUBA
Passado um tempo, a bruxa da montanha despertou.
-Ué! Onde foi parar o amazake?
Yamauba olhou desconfiada para os lados e levantando disse:
- Quem foi o desgraçado que tomou meu amazake? Quem foi?
Novamente o vaqueiro soltou uma voz imitando um deus.
- Fui eu, o Deus do Fogo, o Deus do Fogo.

- Oh! Sim, se foi o Deus do Fogo, fazer o quê?! Meu apetitoso jantar fugiu, comeram meu moti e beberam meu amazake. O melhor que tenho a fazer hoje é dormir cedo. Esta é uma noite sem graça, uma noite cansativa.

A bruxa entrou em um baú para dormir. Minutos depois era possível ouvir um ronco alto vindo do baú. Então o Ushikawa desceu silenciosamente do telhado e foi de mansinho perto do baú. Ao lado do baú havia uma chave e o vaqueiro tratou de trancar a tampa do baú. E disse para si mesmo:

- Monstro como essa bruxa que vive atormentando as pessoas não devia existir.
Em seguida, trouxe um bule da dispensa e colou água para ferver no irori (braseiro). Foi até o fundo da casa, trouxe um furador e começou a fazer um buraco na tampa do baú.
Devido ao barulho da furadeira, a bruxa despertou dentro do baú.

- Que barulho é esse fazendo kiri, kiri? Ah! Deve ser o bicho carpinteiro. Cantando assim à noite é sinal de que amanhã vai fazer tempo bom, comentou a bruxa e tornou a dormir.

Passado algum tempo, a água da chaleira começou a ferver. O vaqueiro despejou toda a água fervendo para dentro do baú através do buraco. Um berro horrível saiu de lá dentro, seguido de uma barulheira infernal. Depois de instantes, tudo voltou ao silêncio.

- Vinguei o meu estimado boi, disse o Ushikata, saindo em direção de sua aldeia.

Fim.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
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