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Arquivo NippoBrasil - Edição 081 - 30 de novembro a 6 de dezembro de 2000
 
A Serpente Encantada - Parte 2
A Lenda da Origem da Cobra Cega e do soar dos sinos nas montanhas japonesas

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

Os dias foram passando e o lenhador foi ficando preocupado, impaciente.
- Deve ter acontecido alguma coisa... Ela pode estar passando mal...Por que tanto silêncio?
No sétimo dia ouviu o choro de uma criança.

-O bebê nasceu! Kirei saiu correndo emocionado e esqueceu o que havia prometido. Entrou bruscamente no depósito e ficou paralisado com o que viu. Sua mulher era uma enorme serpente. Ela estava carinhosamente enrolada em torno da criança. Naquele momento o lenhador entendeu porque sua amada as vezes agia de modo estranho e não podia responder algumas perguntas pessoais. Chorando por ter quebrado a promessa, ele correu para o meio da floresta.
No dia seguinte Kihei deparou com a serpente de deixava o depósito.

-Você quebrou a promessa e desfez o encanto, por isso não posso mais continuar na forma de mulher. Se não tivesse me visto eu continuaria sendo sua mulher para o resto da vida. Fui muito feliz ao seu lado, mas agora preciso de seguir meu caminho, pois o sonho acabou. Cuide bem da criança.

Em seguida, num tremendo esforço a cobra fez seu olho saltar para fora e cair na mão de Kihei, que levou um enorme susto.

-A criança vai chorar de fome, nessa ocasião você dá meu olho para ela chupar. Assim ele vai crescer forte e sadio e não vai passar fome. Adeus meu amor, cuide bem do menino.
O lenhador caiu em profunda melancolia. Lamentou a sua imprudência que resultou na quebra de promessa. :Por ele gostaria de ter vivido o resto de sua vida ao lado da amada. O que amenizava um pouco sua solidão era o garoto que cuidava da melhor maneira possível. Sempre que chorava dava o olho que a mãe havia deixado e assim foi crescendo.

Passado alguns anos, o tamanho do olho foi diminuindo, diminuindo até desaparecer completamente. O menino começou a chorar e não parava mais, pois não tinha o olho para chupar. Kihei fez de tudo para distraí-lo mas o garoto continuou berrando aos prantos. Desesperado o lenhador, carregando o filho saiu a procura da mãe montanha a dentro.
Chegando na beira de um lago, Kihei começou a gritar apelando para ela aparecer, pois não sabia o que fazer para o menino parar de chorar. Ouvindo o choro da criança a serpente a beira do lago emocionada.

-Quanta saudade, fico feliz que ambos então bem. Se o olho acabou darei o outro que me resta. Dizendo isso ela fez um grande esforço e o olho saltou para fora. Kihei ficou emocionado em saber que o amor de mãe estava acima de qualquer sacrifício.

-Você ficou sem olhos, podemos fazer algo para ajudá-la? Perguntou o lenhador.
-Cega não saberei se é dia ou noite. Como vou saber a idade de meu filho sem poder contar o tempo ? Tudo que peço é que bata diariamente um sino, ao amanhecer e ao entardecer. Dizendo isso a serpente mergulhou no lago desaparecendo nas profundezas.

A partir daquele dia, as badaladas de um sino se fez ouvir diariamente ao amanhecer e ao entardecer na montanha. Mesmo depois que o garoto cresceu e não precisou mais chupar os olhos da mãe, os sinos continuaram soando. O fenômeno espalhou-se por todas as montanhas do Japão e ainda hoje, passado milhares de anos, os sinos continua soando ao amanhecer e ao entardecer na terra do sol nascente.

 

COMENTÁRIO
Sendo o Japão um pais milenar, para tudo existe uma história que “justifica” a origem das coisas. Esta história da serpente encantada, explica não só a origem do porque a cobra cega não tem olhos, bem como justifica o soar diário dos sinos nas montanhas do Japão onde abrigam os grandes templos religiosos. A serpente, assim como o dragão é considerado um animal kármico, no Horóscopo Zenchi (também conhecido como Horóscopo Japonês). Na antigüidade, a serpente era tida como mensageira dos deuses, a exemplo da raposa e do texugo e do dragão, pois o povo não consegui entender como um animal sem pernas consegui se locomover com tanta rapidez. O fato de existir cobra cega, aumentava ainda mais aura mistériosa a respeito desse animal.

Esta lenda parecer que foi inspirada em outras lendas japonesas antigas. A primeira parte lembra Urashima Tarô, o pescador que salvou uma tartaruga e também a lenda de “Shitakiri Suzume” o velhinho de salvou um pardal. Como nesta da cobra, o gesto bondoso mereceu uma recompensa. Porém o conteúdo da história é muito parecida com a lenda de um jovem que salva um tsuru (garça grou) de uma armadilha e esta o recompensa transformando em uma linda donzela, que tece magníficas peças de tecido usando suas penas.

A passagem em que a serpente vai dar a luz, parece ser inspirada na história de Hoori no Mikoto e a Toyotama Hime, da mitologia japonesa.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
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