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Arquivo NippoBrasil - Edição 076 - 26 de outubro a 1 de novembro de 2000
 
Urashima Tarô. A Lenda do Pescador - Parte 2

Adaptação livre de Claudio Seto
(
Texto e desenhos: Claudio Seto)

O portão abriu-se silenciosamente e uma linda princesa acompanhada de belas ninfas aproximou-se do pobre pescador.

- Bem-vindo a Ryugu, o Palácio do Dragão. Sou Toyotama Hime, filha do Shiyozuchi no Kami, o deus de todos os mares. Agradeço por ter salvo a tartaruga das mãos de uns pestinhas. Atualmente é raro encontrar um ser humano tão bondoso.

Urashima estava encantado com tanta beleza. Nunca vira em toda sua vida tamanha maravilha e nem imaginava que elas pudessem existir. Mil olhos seriam necessários para poder apreciar tudo que o rodeava. O espetáculo que tinha diante de si parecia um belo sonho. De repente a bela princesa fez um sinal e surgiu um cardume de peixes bailarinos que dançando traziam pratos diferentes de comida e compôs um grande banquete.

Ao som de uma música suave Urashi foi servido de iguarias cujo sabor era deliciosamente indescritível. Enquanto Urashima comia com a agradável companhia da princesa e suas belas acompanhantes, os peixes dançavam, cantavam e tocavam instrumentos musicais.

- Vou abrir essa caixinha, a princesa disse, que é muito importante para mim, então deve haver um meio de eu retornar ao Palácio do Dragão. Assim dizendo o pescador desatou o nó do cordão que prendia a tampa. No interior da caixa só havia uma pequena fumaça branca que logo se dissipou. De repente a feição de Tarô começou a envelhecer e seus cabelos ficaram totalmente brancos. Seu físico jovem e esbelto foi murchando, enrugando, emagrecendo e encurvando. Urashima Tarô se transformou num ancião centenário.

Olhando a caixa vazia Urashima compreendeu tudo:
- Realmente uma coisa muito importante estava presa dentro da caixa - o tempo para mim. Se eu não tivesse aberto, teria todo tempo do mundo para esperar pela tartaruga, esse bicho sem pressa. Uma vez aberto o tempo está passando como devido. Em alguns minutos voltarei a ser pó...

Depois do banquete a princesa convidou Urashima Tarô a conhecer todas as dependências do palácio. Atravessando uma porta de cristal adentraram num enorme e luxuoso salão. Mais adiante subiram uma escadaria de madrepérola e foram para a torre de enormes janelas. Curiosamente eram quatro janelas voltadas cada uma para um ponto cardeal.

A princesa abriu a janela leste e uma paisagem de primavera descortinou-se em frente deles. As flores de cerejeira cobriam de rosa várias árvores, as flores de ameixeira brotavam dos galhos escuros e muitas e muitas flores cobriam os campos como um tapete encantado. Ouviu-se o canto dos pássaros e a festa dos rouxinóis. Quando Toyotama Hime abriu a janela sul, era o verão. A alma das plantas estavam nas folhas. O sol radiante fazia tudo brilhar e uma brisa refrescante trazia o canto das cigarras. Por trás da janela do oeste estava o outono. As folhas avermelhadas de acer (momiji) cobriam as serras e as plantas da estação estalhavam pelo campo. Abrindo a janela do norte era o inverno. A energia da planta repousava nas raizes e os galhos estavam despidos. Uma linda paisagem de neve cobria toda montanha onde namorava um casal de tsuru (garça grou).

Urashima estava embriagado de tanta beleza ao seu redor e perdera completamente a noção do tempo. Quando sentia vontade de apreciar as cerejeiras, bastava abrir a janela correspondente. No Palácio do Dragão era festa todos os dias. Eram promovidas brincadeiras culturais de salão, sessão de criação e leitura de poesias e muitos banquetes acompanhados de danças e músicas. Assim se passaram os anos sem que Urashima percebesse.

Certo dia Urashima começou a pensar em retornar à sua terra natal, pensando que seus pais poderiam estar preocupados com sua demora, pois saíra para pescar e veio ao Palácio do Dragão sem avisar a ninguém.

A saudade bateu para valer e o pescador foi ficando preocupado com a saúde de seus velhos pais. Diante disso, a dança nem a companhia de bela ninfas já não o divertia mais. Mesmo diante do farto banquete não sentia vontade de comer. Notando mudança em seu semblante a princesa perguntou:

- Taro-san, tenho notado que você não está bem. Algo o preocupa?
- Vim sem avisar e meus pais devem estar preocupados comigo. Devo voltar pois não quero causar incômodo para eles. Também estou com saudade de minha terra e de meus amigos. Aqui tudo é maravilhoso, mas não pertenço a este mundo.
- Ora, você pode ficar quanto tempo quiser, aqui todos amamos você e sua bondosa alma.
- Agradeço a hospitalidade mas realmente tenho que ir.
Vendo sua determinação a princesa compreendeu e disse:

- Gostaria que ficasse, mas não posso segurá-lo contra sua vontade. Aceite este presente de despedida - disse a princesa entregando um pequeno baú chamado Tamatebako. Dentro existe uma coisa muito importante para você, porém, não deve abrir essa caixa se quiser retornar para cá.

Com o tamatebako debaixo do braço, Urashima Tarô se despediu de todos e deixou o Palácio do Dragão montado no casco da tartaruga. Pouco tempo depois já estava na praia onde ficava a aldeia de pescadores. Despediu-se da tartaruga e tomou rumo de sua casa. Urashima ficou emocionado ao ver a paisagem do local onde ele nasceu. Caminhou ansioso em direção de sua casa, mas percebeu que apesar de o lugar ser o mesmo, algumas casas estavam diferentes na vila. Estranhamente as pessoas que cruzava pelo caminho eram todas desconhecidas. Algo estava errado, pois nascera naquele vilarejo de pescadores e conhecia todos os moradores e cada palmo de terra daquela ilha.

- Inexplicável, como as coisas podem ter mudado tanto em tão pouco tempo? Onde estão as pessoas que eu conheço? Que brincadeira é essa? Conheço o lugar onde nasci, as montanhas, os rios e a praia são as mesmas, mas as casas e as pessoas são diferentes.
Tarô correu em direção de sua casa para que seus familiares dessem uma explicação do que estava acontecendo. Chegando ao local levou um tremendo susto. Não havia mais casa no terreno, apenas capim e abandono.

- O que aconteceu a minha casa e a meus pais?
Tarô ficou atordoado sem nada entender. Nisso passou por lá um velhinho encurvado pela idade, apoiando em sua bengala.

- Por favor, sabe me dizer onde é a casa de Urashima Tarô? – perguntou.
- Esse nome não me é estranho... parece que já ouvi falar dele...deixe-me ver...ah! quando eu era criança me contaram que nessa região morava um pescador chamado Tarô... assim Urashima Tarô. Era um moço bondoso que morava com seus pais, porém um dia ele foi pescar e nunca mais retornou. Seu barco foi encontrado abandonado na praia, trazido pela maré. Dizem que ele morreu afogado...

Urashima levou um tremendo susto e quis saber mais a respeito.
- E os pais do pescador, o que aconteceu com eles, para onde mudaram?
- Já morreram, isso aconteceu há 300 anos. Nem a casa sobrou, dizem que ficava por aqui.
Tarô entendeu a triste realidade. O pouco tempo que ficou no Palácio do Dragão se divertindo eqüivale a 300 anos terrestres. Sentiu um grande peso no espírito ao saber que enquanto vivia momento deliciosos, seus pais e seus amigos estavam morrendo. Sentiu um grande vazio ao perceber que agora em sua terra natal, ninguém o conhecia.

Tarô vagueou pela praia sem rumo. Uma profunda tristeza havia tomado conta de seu coração. Sozinho e desolado, sentou-se em uma pedra e ficou olhando o mar.
- Não tenho mais casa e ninguém aqui me conhece... Acho melhor voltar ao Palácio do Dragão, lá sou bem quisto por todos. Mas como poderei voltar lá se a tartaruga já foi embora?

Enquanto esperava desolado que a tartaruga pudesse surgir novamente, lembrou que a princesa aconselhou a não abrir o baú se quisesse voltar para lá. Sem dúvida aquele baú era o meio para que ele pudesse um dia retornar ao paraíso no mar. As horas foram passando e Urashima Tarô começou a ficar impaciente.


Enquanto esperava desolado que a tartaruga pudesse surgir novamente, lembrou que a princesa aconselhou a não abrir o baú se quisesse voltar para lá. Sem dúvida aquele baú era o meio para que ele pudesse um dia retornar ao paraíso no mar. As horas foram passando e Urashima Tarô começou a ficar impaciente.

-Vou abrír essa caixinha, a princesa disse que é muito importante para mim, então deve haver o meio de eu retornar ao Palácio do Dragão. Assim dizendo o pescador desatou o nó do cordão que prendia a tampa. No interior da caixa só havia uma pequena fumaça branca que logo dissipou. De repente a feição de Tarô começou a envelhecer e seu cabelos ficaram totalmente brancos. Seu físico jovem e esbelto foi murchando, enrugando, emagrecendo e encurvando. Urashima Tarô se transformou num ancião centenário.

Olhando a caixa vazia Urashima compreendeu tudo:

“Realmente uma coisa muito importante estava preso dentro da caixa - o tempo para mim. Se eu não tivesse aberto, teria todo tempo do mundo para esperar pela tartaruga, esse bicho sem pressa. Uma vez aberto o tempo está passando como devido. Em alguns minutos voltarei a ser pó...”

Adaptação livre de Claudio Seto
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