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Arquivo NippoBrasil - Edição 064 - 3 a 9 de agosto de 2000
 
A Deusa e o Dragão

Adaptação livre de Claudio Seto
(
Texto e desenhos: Claudio Seto)

Na tradição japonesa a Deusa Benten, protetora das artes e da eloquência, é a única representante do sexo feminino no carismático grupo Shitifukujin (Os 7 Deuses da Sorte e da Fortuna) que todos os japoneses adoram.

Conforme o Horóscopo Zenchi (também conhecido como Horóscopo Japonês), 2000 - o Ano do Dragão, tem como “Protetora da Sorte do Ano” a Deusa Benten e o “Espírito de Luz Regente do Ano” o deus Shiyozushi no Kami - Divindade das Águas e do Mar (embora de aspecto humano, muitas vezes é citado como Rei-Dragão). A ligação entre a Deusa Benten e o Dragão tem origem numa lenda da região do lago Biwa.

Há muitos e muitos anos existia um feroz Dragão morando no lago Biwa. Aliás, naquela época o enorme lago que se situa na costa oeste do Japão ainda não era chamado de Biwa e nem sequer tinha nome. Dizia o povo da periferia que o monstro morava numa enorme caverna e era louco por carne macia e doce das crianças. Quando chegava a estação das flores, ele saía de seu esconderijo e subia até a superfície, onde as crianças de todas as idades brincavam na areia e mergulhavam alegremente nas límpida água do lago.

As mães costumavam aconselhar a seus filhos que não se afastassem muito de outras crianças, senão poderia ser engolido pelo monstro numa só bocada. Contavam também que várias famílias já tinham chorado a perda de seus filhos por causa do impiedoso animal.

Certa ocasião, a Deusa Benten, patrona das artes e da eloqüência, passando pela região, ouviu várias lamúrias de pais desesperados, cujos filhos tinham desaparecido enquanto nadavam no lago. Benten prometeu resolver a situação. Apesar de não aprovar as ações violentas praticadas pelo Dragão, a Deusa tinha pena do monstro. Sabia que sua crueldade era fruto da solidão a que estava condenado aquele animal kármico. Temido por todos devido sua aparência nada convencional, o Dragão foi obrigado a viver num escuro refúgio submarino, onde sequer um filete do carinhoso do raio solar, enviado por Amaterassu Omikami, a deusa-Sol, jamais chegou.

- Como poderá ser bondoso se nunca conheceu a bondade? Questionava a Deusa Benten, lembrando que desde o início da civilização, sempre que os seres humanos viam um Dragão, logo queriam matá-lo ou fugiam apavorados, como quem viu a coisa mais horrorosa do mundo. Assim que percebeu que os humanos o odiavam passou a odiá-los também.

Certo dia as pessoas que estavam perto do lago ouviram uma música maravilhosa ao som de um biwa (instrumento de cordas, espécie de mandolina). Quando olharam para cima viram que a Deusa Benten sentada sobre uma pequena nuvem, servindo-se dela como um veículo voador, desceu do céu em direção à água. Quase tocando na superfície sobrevoou a água do lago e parou num determinado lugar, onde supostamente ficava a gruta do Dragão. Com sua voz melodiosa cantou uma bela canção enquanto tocava seu biwa de maneira genial.

Não tardou muito a água ficou escura e agitada como se estivesse em ebulição. E de dentro dela surgiu a temida figura do Dragão que com sua enorme boca aberta foi em direção da Deusa.

Benten não esboçou nenhum gesto de medo e sorriu fraternalmente. Aquele sorriso acalmou a água, que voltou a ser azul. Ao redor da deusa começaram a desabrochar uma infinidade de flores aquáticas, uma mais linda que a outra. Como se isso não bastasse, milhares de pássaros surgiram no céu, trazendo pétalas de flores no bico e deixaram cair como neve perfumada sobre a Deusa e o Dragão.

Surpreendido com tanta beleza num só dia, o Dragão ficou acabrunhado, aturdido, envergonhado e sem ação diante da linda divindade. A deusa aproximou-se sempre sorrindo e o surpreendeu com uma proposta:

-Quer casar comigo? Aposto que assim nunca mais sentirá solidão. Vou amá-lo muito e viveremos num paraíso. Vamos ter lindas crianças e você será muito feliz!

O Dragão concordou, balançando a cabeça enquanto lágrimas de emoção caíam de seus olhos emocionados.

Dizem que a partir daquele dia, as crianças passaram a brincar tranqüilamente no lago, que recebeu o nome de Biwa. O Dragão passou a ser chamado de Deus das Águas e do Mar e construiu um belo palácio submarino. Por isso muitas vezes Benten é chamada também de Deusa do Mar.

 

Comentários:
- Benten é uma deusa de origem Taoísta, portanto essa lenda faz parte do sincretismo religioso do povo japonês, pois na tradição Shintô, “Deus das águas e do Mar” é a divindade Shiyozushi no Kami, sendo que na mitologia consta como pai de Toyotama Hime (Princesa Alma Luxuriante) e sogro de Yamano Sachihiko no Mikoto (Deus da Montanha e da Caça), bisavô de Jimmu Tennô, o primeiro Imperador do Japão.

Existem várias lendas em que Benten aparece sobre as águas do mar, sendo particularmente conhecida a passagem em que o famoso guerreiro Taira no Kiyonori (1118-1185), quando jovem, encontra-se com ela. Kiyonori estava no Mar Interior de Seto e deparou-se com um barco de enorme vela vermelha resplandecendo nas proximidades da ilha Miyajima. Ao subir à bordo o guerreiro conheceu três lindas mulheres que eram Benten e suas duas irmãs. Benten prometeu a Kiyonori muitas glórias se ele ampliasse o templo dedicado à ela em Miyajima. Guiado pela ambição Taira no Kiyonori ampliou o templo. Na seqüência, derrotando a clã Minamoto, tornou-se o homem mais poderoso do Japão e permaneceu como regente do poder imperial até sua morte em 1185.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
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