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Arquivo NippoBrasil - Edição 058 - 22 a 28 de junho de 2000
 
Hanasaka jiji, o velhinho da primavera - Parte 2
 

Adaptação livre de Claudio Seto
(
Texto e desenhos: Claudio Seto)

Um bom velhinho, Hanasaka jiji - uma versão oriental do bonachão Papai Noel - havia encontrado um cachorro com poderes especiais, que havia lhe mostrado o local onde tinha sido enterrado um tesouro. Presenciando tudo isso, o vizinho ganancioso raptou o cão Shirô e o obrigou a lhe indicar outra fortuna escondida. Não conseguindo, o invejoso terminou por matar Shirô.

Mas as façanhas do cachorro continuaram a acontecer. No local onde foi enterrado, nasceu um grande pinheiro, que serviu de matéria prima para um mágico pilão de fazer moti. Mais uma vez, o ganancioso vizinho tentou se apoderar do pilão, mas novamente não conseguiu reproduzir seus poderes. Danado da vida, o velho malvado retalhou o pilão com o machado e fez uma bela fogueira.

Quando o velhinho bondoso ficou sabendo do ocorrido, desolado recolheu as cinzas numa caixinha de madeira e voltou para casa arrasado. Ao chegar em casa, mostrou para a velhinha o que sobrou do pilão que guardava a memória de Shirô, pois o moti também é shiroi (branco). Nesse instante uma brisa carregou as cinzas da superfície da caixinha para o quintal. As cinzas pousaram em galhos secos e de cada pozinho nasceu uma flor de cerejeira. Todas as árvores do quintal floresceram e as árvores secas ficaram esplendorosas.

A notícia correu pela aldeia e caiu nos ouvidos de uma tropa de nobres samurais que escoltavam o mandatário da região (daimyo), que passava pelas proximidades. O poderoso Daimyo mandou chamar o velhinho e ordenou que mostrasse sua magia.

Preocupado que o milagre das flores não se repetisse, o bondoso velhinho subiu numa árvore seca e espalhou a cinza pelos galhos evocando Konohana Sakuya Hime - a deusa Floração, que conforme a lenda, por onde ela passa, as flores desabrocham. Novamente como pôr encanto, as árvores secas ficaram cheias de flores de cerejeira. O Daimyo e os samurais ficaram admirados e até emocionados por poderem apreciar a flor de cerejeira fora da estação. Pois conforme a tradição japonesa, a cerejeira é a flor dos guerreiros.

Como recompensa pelo belo espetáculo, presentearam o velhinho com ricos kimonos e moedas de ouro. O ancião voltou para casa feliz da vida e algumas moedas a mais para sua coleção.

O vizinho invejoso, ao saber do ocorrido, apanhou as cinzas que restaram no quintal e se posicionou junto a algumas árvores na beira da estrada, por onde passaria os nobres samurais no retorno ao castelo. Quando a tropa aproximou, ele chamou a atenção dos guerreiros gritando e cantando todo alegrinho:
- Eu sou o Velhinho da Primavera, aquele que faz galhos secos florescerem! La-ri-la-ri la!

O nobre senhor da região desceu da montaria e quis apreciar mais uma vez a floração das cerejeiras que tanto amava:
- Que aldeia fantástica, todos aqui sabem a mágica da deusa Konohana Sakuya Hime. Dizendo isso, o nobre senhor ordenou que o velhinho executasse o espetáculo.

O ganancioso velhinho começou a espalhar as cinzas pelos galhos, porém nada aconteceu.
- O que está esperando homem? Quero ver as flores de sakurá (cerejeira)!

Desesperado o ansião gritava:
- Floresce cerejeira. Floresce cerejeira. Ajude-me deusa da Floração. Mas nada de flores desabrocharem. Então o velho despejou todas as cinzas sobre os galhos para ver se funcionava. O exagero teve dramática conseqüência. As cinzas caíram nos olhos do Daimyo e dos samurais.
- Velho insolente, além de impostor é um atrevido. Prendam-no!

Conta a lenda que o velho ganancioso pediu perdão de joelhos ao governador e jurou que não praticaria mais coisas desonestas nem cobiçaria o que à outros pertenciam. Concluiu que o espírito de Shirô estava-lhe castigando, pela maldade por ele praticada e ficou muito arrependido da sua maneira de agir.

O governador ficou comovido com lágrimas do ancião e depois de repreendê-lo duramente, deixou-o seguir seu caminho, pois conforme a sabedoria popular japonesa, o castigo dos mortos é bem pior que o castigo dos vivos.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
 

Comentários:
Esta lenda é conhecida pôr dois nomes: “A história de Shiro” ou “Velhinho Floração” (Hanasaka Jiji), e está entre as cinco mais populares do Japão. Sua narrativa que no primeiro momento ensina o amor pelos animais, contribuiu paralelamente para relacionar o moti com a sorte, tanto que atualmente esse bolinho é degustado no primeiro dia do ano novo para garantir a sorte para o ano todo.

Outro simbolísmo que podemos perceber nas entrelinhas é o recado de que a cerejeira é a flor preferida da classe guerreira (samurai), conceito tão divulgado posteriormente, quando se dizia: “A cerejeira é a primeira entre as flores; o guerreiro é o primeiro entre os homens”. Essa flor era considerada símbolo dos samurais pela beleza efêmera - tal a vida de Shirô nesta lenda.

O mais interessante desta narrativa é observar que nenhum personagem humano tem nome, já o cachorro sim: Shirô-san, afinal ele é o mais generoso e justo da história. Tanto que, mesmo depois da morte, continuou retribuindo o amor que recebeu dos bons velhinhos em vida. Essa “obrigação moral” chamada guiri era o vínculo que estabelecia entre pessoas concretas, bem determinadas, que podem estar em situações diferentes (pai-filho, mestre-aluno, suserano-vassalo, patrão-empregado) ou equivalentes (vizinhos, aliados, amigos, colegas, alunos). Essas relações duráveis, irrevogáveis, comportam a idéia que o sujeito faz de sí mesmo e a estima que se tem por ele, são confiadas à sua discrição, à sua delicadeza. É preciso devolver um benefício, ou melhor, mostrar que ele não foi esquecido (até após a morte como no caso do cachorro Shiro ou da “Vingança dos 47 Samurais”) e o pagamento, que aliás não anula mas alimenta a relação, pode se revestir das mais diversas formas. Lealdade era uma virtude das mais apreciada pelos samurais.

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