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Arquivo NippoBrasil - Edição 055 - 1 a 7 de junho de 2000
 
O monge dorminhoco e o macaco roncador - Parte 1

Adaptação livre de Claudio Seto
(Ilustração: Claudio Seto)

Havia um velho templo nas encostas da montanha, pouco freqüentado e por isso quase em ruínas. Nele viviam tranqüilamente um idoso monge Zen e um macaco preguiçoso igualmente velho. Como a presença de fiéis era coisa rara, o monge e o macaco dormiam praticamente o dia inteiro. A única coisa que perturbava a tranqüilidade daquele local sagrado era o ronco da barriga do macaco. Por roncar tão alto, o monge deu ao macaco o nome de Torá, que em japonês significa Tigre.

Numa bela tarde primaveril o monge foi surpreendido e despertado com o macaco falando como gente:
- Monge acorde, a filha do milionário da aldeia morreu e cometeram uma grande injustiça com o nosso templo.

- O que? Estão culpando o templo pela morte da pobre mocinha rica?
- Não é nada disso. A injustiça está no fato de que chamaram o Monge de Alta Classe da capital para encomendar a alma da moça.

- Ora Tora-san, se o pai da defunta é um milionário não é de se estranhar que chame um monge de sua classe social. Não vejo motivo porque iria me chamar, se sou um pobre monge de um templo pobre.

- Aí é que está a questão, Velho Monge. Essa era a grande oportunidade para mudarmos essa situação de penúria. O milionário poderá nos ajudar, reformando o templo e abastecendo fartamente nossa dispensa, que aliás há muito tempo está vazia.

- Meu bom Tora-san, para que mudar se sempre vivemos assim. Nossa vida tem sido boa e tranqüila, dormimos quase o dia inteiro ao som das cigarras e pássaros. Vamos continuar desfrutando dessa calmaria Zen que a natureza nos oferece.

O macaco explicou ao bom monge que já não agüentava ouvir a própria barriga roncando de fome. Como já estava velho gostaria de ter pelo menos um moti (bolinho da sorte, feito de arroz glutinoso) assado para comer diariamente, pois tinha pouco tempo de vida e temia morrer de barriga vazia.

- Realmente já estamos velhos e você sempre foi um fiel companheiro. Disse o monge.
- Então, em nome da nossa velha amizade deixe-me tentar um truque para melhorar a situação deste templo. Se depender do senhor, vamos ficar dormindo até morrer. Dormir é bom, mas com a barriga cheia.

- E o que posso fazer pelo meu bom amigo?
- Durante o enterro vou fazer o omikoshi (santuário onde transportavam pessoas falecidas) flutuar. Creio que vão chamá-lo para trazer o omikoshi de volta para o chão. Peço que ao invés de rezar como faz normalmente, fique repetindo a frase: “Namu Saru-Tora yaya, moti suki yaya, yakimoti yaya, kanemoti yaya, mote kuru yaya.

O monge achou a idéia completamente maluca, mas resolver participar da brincadeira em atenção ao velho companheiro que provavelmente pela idade, estava começando a caducar. Tão caduco estava que já falava como gente, ao invés de permanecer na privilegiada condição de macaco.

O féretro

Ricas coroas de flores enfeitavam o caminho entre a casa do milionário e o cemitério. O féretro saiu do palacete tendo a frente o Monge de Alta Classe, que trajava um pomposo hábito de seda importada da China. Atrás vinha o omikoshi em formato de pagode carregado pelos serviçais e seguido pelo choroso pai milionário.

No meio do trajeto o macaco usando um chapéu em forma de cone começou a dançar na frente do féretro. Os discípulos do Monge de Alta Classe, que tocavam um suzuri, tamborete para dar ritmo à procissão, não contendo o riso caíram na gargalhada. Feito infeliz, apesar do bom humor. Saíram completamente do ritmo e destrambelharam a seriedade dos passos pausados do nobre enterro.

A procissão mais parecia a dança awaodori. Os participantes iam de uma margem a outra da estrada, serpenteando ao compasso bem humorado do tamborim. O Monge de Alta Classe, com sua compostura impecável ralhou os acompanhantes:

- Olha o respeito! Parem com isso ou serei obrigado a invocar o castigo divino.

Dito e feito. O omikoshi desprendeu-se das mãos dos serviçais e começou a subir flutuando. Um zelador teimoso chegou a subir dependurado por alguns metros do solo, mas acabou despencando em cima do Monge de Alta Classe.

Estabeleceu-se a maior confusão. Ninguém acreditava no que os olhos viam. Já haviam ouvido falar em cobra com oito cabeças, dragões que voam em dias de chuvas, visita de carruagens celeste e histórias de seres sobrenaturais. Porém, omikoshi de defunto flutuante não havia registro em nenhum momento da história japonesa.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
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