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Arquivo NippoBrasil - Edição 054 - 25 a 31 de maio de 2000
 
Momotarô - Parte 2
O menino que nasceu espetacularmente do pêssego parte
para enfrentar os onis, demônios que atormentavam a aldeia onde vivia.

Adaptação livre de Claudio Seto
(Ilustração: Claudio Seto)

Depois de surgir de um pêssego, Momotarô cresceu e se tornou um robusto menino, cuja força não encontrava páreo na vizinhança. Naquela época, contavam que surgiu numa das ilhas do Mar de Seto seres demoníacos que os japoneses chamavam de Oni. Esses indivíduos saqueavam e raptavam as donzelas, causando temor e sofrimento ao povo da região.

Sensibilizado com o sofrimento dos velhinhos, ele se prontificou para ir enfrentá-los. A velhinha preparou uma porção de bolinhos de milhete (kibidango) para ele levar de lanche na épica viagem. Logo depois, Momotarô partiu para sua aventura.

Logo na saída da aldeia, Momotarô encontrou um cachorro que cheirando a bolsa, latiu cantando mais ou menos assim:

Momotarô-san, Momotarô-san,
okoshi ni tsuketa kibidangô,
watashi-ni shitotsu kurenai ka?

É incrível porque no Japão, até os cachorros cantam em japonês ! Trocando em miúdos, o cão pediu, cantando, um bolinho de milhete e Momotarô atendeu-o na condição de que o cachorro o acompanhasse na captura dos demônios. Essa condição era imposta porque Momotarô considerava os kibidango que sua mãe fazia, modéstia à parte, os melhores do Japão. Aliás, na história toda, ele faz um comercial danado dos kibidango da sua mãe, respondendo, cantando, a cada bicho que encontrava pelo caminho. Assim, os dois seguiram a jornada e depararam mais na frente com um faisão, que fez o mesmo pedido do cachorro. Momotarô concordou prontamente, exigindo que a ave se juntasse a eles na jornada. Os três encontraram depois com um macaco, que também concordou em ajudar Momotaro em troca de um bolinho. Estava formado o Grupo Caça Demônios comandado pelo garoto que nasceu do pêssego.

De barco chegaram à ilha e deram de cara com um grande portão rodeado por uma enorme muralha de pedras. Momotarô bateu com o cabo de sua espada, exigindo que os oni que estavam de sentinela, abrissem imediatamente o portão. Os sentinelas ficaram surpresos, pois até então ninguém se atrevera a desembarcar naquela malfadada ilha. Os oni começaram a imaginar que deveria ser alguém muito forte para tal ousadia. Nisso o faisão sobrevoou a muralha e num vôo rasante atacou os guardas, que fugiram apavorados para dentro do forte. O macaco por sua vez escalou o muro, pulou para dentro e abriu o portão, permitindo a entrada de Momotarô e do cachorro.

No centro do forte, Momotarô encontrou os oni em meio a uma barulhenta festança, bêbados feito gambá.

- Ouçam, disse o valente jovem. Eu sou Momotaro, o que come kibidangô e vim para puní-los pelos tormentos que vocês tem infringido aos meus compatriotas!

A frase era uma senha de ataque, do tipo “torá, torá, torá !”, assim o cão, o macaco e o faisão lançaram-se num ataque quase suicida (kamiquase), sobre os mostrengos embriagados. Momotarô e seus amigos possuíam agora, cada um, a força de mil homens, pois haviam comido “os melhores bolinhos de milhete do Japão”, o famoso Nippon iti no kibidangô. Conforme os japoneses, mais eficiente que o espinafre do Popeye.

O faisão bicava cabeças e os olhos dos demônios, enquanto o macaco lhes arranhava as costas e mordia as orelhas tal qual Mike Tyson. O cachorro, por sua vez, dava generosas e insaciáveis dentadas nas pernas e nádegas dos oni. Confusos os demônios etilicamente cambaliantes, corriam de um lado para outro e o palco de guerra virou literalmente um pandemônio. Momotarô enfrentava bravamente com sua espada, os bastões e machados, as armas preferidas dos onis (não confundir com ovnis). Depois travou uma luta corporal com o chefe deles, após cortar com sua lâmina o cabo do machado, graças à sua força kibidangoniana, imobilizou o adversário com a cara no chão. Vendo o chefe derrotado, todos os onis se renderam.

O chefe ajoelhou-se à frente de Momotaro e chorando pediu clemência: Oh! Grande comedor de kibidangô, imploro que poupe minha vida ! Nunca mais voltaremos a molestar os seres nipônicos! E mais, todo tesouro que tenho aqui reunido é seu. Toma e leva!

Diante dessa proposta irrecusável, Momotaro balançou a cabeça concordando e poupou a vida dos demônios. O chefe ordenou então, que seus guerreiros retirassem do depósito todas as relíquias que tinha roubado dos japoneses e entregassem ao menino herói. A seguir Momotarô lotou uma carroça de relíquias e triunfante pôs-se a caminho de casa. Foi uma cena tão pomposa quanto os melhores The End das grandes produções hollywoodianas. Ganharam o caminho de volta, com o cachorro e o faisão puxando e o macaco empurrando o rico veículo, enquanto Momotarô, abanando um leque, gritava em grande performance: washoi, washoi, washoi!

Contam até hoje, que depois deste memorável dia, os onis nunca mais incomodaram o povo da região de Seto Naikai (Mar Interior de Seto).

 
Adaptação livre de Claudio Seto
 

Comentário:
Momotarô está entre as cinco lendas mais populares do Japão juntamente com Urashima Tarô, Issun Boshi, Kaguya Hime e Hanassaka Jiji. Histórias que surgiram no período Heian (794-1192) e que refletem nas entrelinhas o aspecto político e social da época.

Em Momotarô, é visível o incentivo ao patriotismo nipônico nascente do período Heian, quando iniciou a japonização de todos os elementos culturais que até então, vinha sendo copiado da China, Esse período também é conhecido como “Era Palaciana”, onde o luxo estava na ordem do dia na corte. Na época, o arroz tomou peso de ouro e ao povo foi incentivado o consumo do milhete (kibi). Portanto, ao que tudo indica, Momotarô já nasceu garoto propaganda no início deste milênio que se finda.

Quanto aos seres lendários chamados de oni, que aparecem inúmeras vezes em histórias japonesas, e até em relatos reais da época, e muitas vezes traduzidos erroneamente como diabos, certamente eram náufragos vikings, que estiveram em todas as partes do mundo, e também no Japão. Como os japoneses nunca tinham visto homens brancos, confundiram com seres demoníacos e foram sumariamente exterminados pelas espadas dos samurais. A data de aparição dos oni, nos relatos japoneses coincide com a presença devastadora dos normandos nas costas da Europa Ocidental (800 a 1100). Os vikings estiveram na América do Norte muito antes de Colombo, navegaram no Mar Cáspio, Mar Negro, Oceano Ártico e Atlântico, possivelmente também no Pacífico.

Os chifres atribuídos às cabeças louras dos oni, certamente eram os famosos capacetes dos guerreiros vikings. Os samurais que os enfrentaram sabiam disso, mas deixaram a imaginação do povo rolar, afinal, isso engrandecia mais ainda os feitos da classe guerreira japonesa. Tanto que tempos depois, no período Kamakura (1192 a 1133), os samurais das regiões onde diziam ter existido oni, começaram a guerrear usando capacete (kabuto) com chifres de bois.

A cor vermelha atribuída à esses seres, certamente fazia referência a pele branca queimada de sol durante a travessia dos oceanos pelos vikings. as coincidências não param por aí. São tantas as evidências, que vamos comentando a medida que os oni forem surgindo neste Zashi do Portal NippoBrasil.

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