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Arquivo NippoBrasil - Edição 068 - 31 de agosto a 6 de setembro de 2000
 
Pré-história do Japão - 3
Suzano-o no Mikoto

(Por Claudio Seto)

O DEUS EXILADO
Depois que Amaterassu Omikami, a Augusta Deusa Sol, deixou a Gruta Celeste (Ama no Iwaya) o céu e a terra tornaram-se tão luminosos como antes. Nas planícies e nas montanhas, as ervas voltaram a crescer e os botões das flores a desabrochar banhados em luz. A natureza estava radiante, nem por isso, os atos de violência cometidos por Takehaya Suzano-o no Mikoto foram perdoados pelos deuses da Alta Planície Celeste (Takama no Hara).

- Desde que aqui chegou, só nos aconteceu desgraça. Expulsemos esse ser violento desse plano divino.

Como castigo, cortaram-lhe os cabelos e as unhas, que era a punição infligida aos maus.
-Vá embora da Alta Planície Celeste. Aqui é o país dos puros. Apesar de você ser irmão de Amaterassu, a Augusta Deusa Sol, seus atos violentos são inadmissíveis. Vá e não volte nunca mais – gritaram em coro todos os deuses.

Suzano-o desceu tristemente de Takama no Hara . “Primeiro expulso por meu pai e agora pela minha querida irmã. Sou um órfão solitário sem ter para onde ir.” O deus exilado evocava a mãe que nunca viu, externando todo seu desejo de vê-la nem que fosse por um instante. Suzano-o não entendia que sentimento era aquele que tanto o atormentava. Se fosse necessidade de um nome, poderíamos chamar de amor filial.
- Ah, que tristeza inexplicável! Sou um ser sem mãe.

NO PLANO TERRESTRE
Banido da Alta Planície Celeste e envergonhado por estar de cabelos e unhas cortadas, Suzano-o perambulou por muito tempo sem rumo e nessa trajetória provocou o nascimento de cinco cereais. Depois foi parar em um local que mais tarde chamaria de Izumo (costa do Mar do Japão - na ilha de Honshu). Ali plantou florestas, retirando fios de barba e cabelos que já haviam crescido.

Solitário e triste, o deus rebelde embrenhou-se na densa floresta e caminhou por longo tempo até chegar às margens do riacho Hi, onde sentou-se para descansar. “Como aqui é tudo deserto! Nem sombra de um único ser humano. Apenas me consolam as aves da floresta”, dizia o Suzano-o, lembrando que desde que deixara a Alta Planície Celeste, nunca mais conversara com ninguém. Repousou, e, como estava com muita sede, foi beber a água do riacho.

Nisso avistou um pedacinho de madeira artesanalmente trabalhada, que vinha sendo carregada pela correnteza. Era um hashi, pauzinho usado para comer arroz, que indicava a existência de seres humanos nas proximidades.

O coração começou a bater mais depressa e pareceu-lhe que as pernas estavam mais leves, guiadas pela emoção de encontrar seres humanos. Suzano-o abriu caminho através das ervas espessas e com as mãos enxotava os insetos do mato. Corria em direção da nascente muito emocionado até que após percorrer algumas léguas, avistou uma moradia.

- Lá está uma casa de palha. Tenho certeza de que é habitada. Que espécie de gente viverá ali ?
Após experimentar um grande sentimento de solidão, Suzano-o compreendeu pela primeira vez, o quanto tinha agido errado no plano divino. – Como fui egoísta, todos gostavam de mim e eu nunca soube corresponder esse amor. Pensava só em mim, exclusivamente em mim e causei muitos dissabores. Doravante agirei de modo que um dia, meu pai e minha irmã me perdoem.

LÁGRIMAS DOS PAIS E DA FILHA
Chegando na casa, Suzano-o descobriu com grande espanto um casal de velhos que chorava agarrado a uma filha muito linda.

- O que está acontecendo? Porquê choram tanto?
- Quem é você ? – soluçou o pai.
- Sou Suzano-o, irmão de Amaterassu, a Augusta Deusa Sol. Pode falar sem medo o motivo que deixam vocês aflitos.

O velho enxugou as lágrimas e começou a contar uma dolorosa história:
- Nós tinhamos oito filhas e só restou a mais nova. Cada ano, Yamata no Orochi, vem e leva uma das nossas filhas para comer. Começou devorando a mais velha e assim sucessivamente já levou sete. Este ano, deve vir para levar a caçula, esta amada e única filha que nos restou.
- Que horror! Quem é esse patife chamado Yamata no Orochi?

- Não é gente, trata-se de uma serpente gigante de oito cabeças, que espalha terror por todo país. Um monstro horrível cujo comprimento vai além de oito montanhas e oito vales. Devora as pessoas e tem um ventre avermelhado como sangue.

UM ESTRATAGEMA
Compadecendo-se da sorte do velho casal e da linda moça, caçula como ele, o destemido deus decidiu ajudá-los.
- Vou livrá-los desse monstro feroz! – gritou Suzano-o empunhando sua espada. - Compreendo seu sentimento meu bom ancião, um pai que perde os filhos é como um filho que perde a mãe.

-Sois muito corajoso divino guerreiro! Agradecemos a boa intenção, mas isso é impossível: ninguém é capaz de vencer o terrível e gigantesco monstro.
- Pela força talvez não, mas é com astúcia que vou tentar.

Suzano-o mandou preparar oito dornas de saquê com fortíssimo teor alcoólico. Em seguida construiu uma paliçada de troncos com oito aberturas e em cada abertura colocou um cântaro com vinho de arroz. Com o consentimento do velho, Suzano-o fez o uso da magia branca e transformou a moça num pente, que enfiou entre seus cabelos, a fim de protegê-la do monstro. Desde então ela passou a ser chamada Kushinada.

YAMATA NO OROCHI
O monstro não demorou a surgir; ouviu-se um ruído pavoroso, semelhante ao de um tufão. Yamata no Orochi chegou derrubando as árvores e fazendo estremecer a terra à sua passagem.
-É ele - gritou o ancião.

- Escondam e não façam nenhum barulho – ordenou Suzano-o . Não gritem mesmo que sintam medo, se não querem ser devorados.
Em seguida Suzano-o desembainhou a espada e esperou pelo monstro.
Subitamente a terrível serpente apareceu. Seus olhos eram avermelhados como brasa. Aproximou-se das dornas atraído pelo gostoso cheiro de sake.

Dizem no Japão que nem demônio (Oni) resiste ao odor do sake, e foi o que aconteceu: o monstro introduziu cada uma das suas cabeças pelas oito aberturas na paliçada e começou a beber todo vinho de arroz dos vasilhames. Era tanta a gula que chegou a perder a respiração. Imediatamente o álcool fez efeito; o seu corpo deitava chamas. Contorcendo violentamente a cauda bateu com ela no chão. A terra fendeu-se e o vento começou a soprar numa tempestade. O reptil diabólico caiu embriagado.

Aproveitando-se da ocasião, Suzano-o avançou com a espada em punho e num imenso esforço, perfurou uma após outra as oito cabeças do monstro. A cada golpe, o sangue jorrava numa forte golfada. A água da ribeira Hi tomou a cor das folhas de momiji (ácer de folha vermelha).

A ESPADA SAGRADA
Após perfurar as oito cabeças, Suzano-o corto a cauda do monstro. Mas ouviu um som metálico e deu-se o vitorioso encontrou uma belíssima espada, cuja lâmina não apresentava o mínimo sinal de ferrugem. Essa arma passou para a história sendo chamada de Ame-no Murakumo no Tsurugi.
- Oh! – exclamou Suzano-o . – Talvez essa espada possua um poder extraordinário.

Nesse momento, um pensamento atravessou o espírito de Suzano-o: Eu próprio era como este monstro quando aterrorizava a Alta Planície Celeste (Takama no Hara) e espalhava terror por toda parte. Para que me perdoem, darei de presente a minha irmã Amaterassu, esta espada maravilhosa que encontrei na cauda da serpente de oito cabeças...”

Por seu turno, o casal de velhinhos e o povo da redondeza estavam doidos de alegria por verem o monstro definitivamente derrotado. O seu longo tormento tinha chegado ao fim. Renasciam para a vida e agradeceram ao deus com inúmeras provas de gratidão.

KUSHINADA
Kushinada, a bela jovem que Suzano-o havia salvo apaixonou-se por ele e esse sentimento foi recíproco. Casaram-se e construíram um palácio para ambos. Assim fundaram um país que se chamaram de Izumo, - a nuvem que sobe. Com efeito viram, um dia, uma bela nuvem que subia lentamente no céu, iluminado as montanhas e o mar.

- “Tenho a certeza de que é a minha irmã Amaterassu que do alto do céu me envia sinais de coragem. Tenho de governar bem o meu reino”. Pensando assim, Suzano-o cumpriu a promessa com todo o seu coração.

 

Comentário:

Suzano-o no Mikoto ou deus-Tempestade pode ser traduzido também como “Masculino Impetuoso” ou “Majestade Poderosa Rápida e Impetuosa”. Ele é considerado um dos deuses mais importantes da mitologia japonesa, porque seus descendentes muito contribuíram para o desenvolvimento do país e colaboram para a formação do Império Nipônico. Suzano-o é descrito como jovem propenso a rompantes de violenta emoção e é uma das figuras mais interessantes do Kojiki, para o gosto contemporâneo acostumado com filmes de ação. Embora taxado de deus, Suzano-o expressa o lado agressivo e impetuoso da natureza humana.

Independente das qualidades divinas atribuídas aos ancestrais da família imperial por conveniência política dos anos 700, pesquisadores entendem que Suzano- o foi o primeiro membro da clã Yamato que chegou a região de Izumo e que, provavelmente, os habitantes que lá residiam eram os ainus (nativos do Japão). No decorrer da pré- história japonesa, veremos que os descendentes de Suzano-o, num primeiro momento lutam com os descendentes de Amaterassu (que chegaram comandado por Ninigui no Mikoto – Augusto Neto Divino) mas por fim, juntam-se na formação do Império Yamato - inclusive com o casamento de Jinmu Tenno (5ªgeração de descendentes de Amaterassu e primeiro Imperador do Japão) com Hime Tamo Izumo Hime no Mikoto (bisneta de Suzano-o).

Ame-no Murakumo no Tsurugi, a Espada Sagrada encontrada na cauda da serpente de oito cabeças (Yamata no Orochi) conforme diz o mito de Kojiki (o mais antigo livro do Japão) passou a pertencer mais tarde à Família Imperial, como uma das três relíquias divinas (Espelho, Espada e Jóia Sagrada).

Anos depois, Suzano-o presenteou a irmã Amaterassu com a Espada Sagrada e, como retribuição, Amaterassu lhe deu a Jóia Sagrada (bola de cristal) que forma o terceiro elemento das insígnias imperiais do Japão (a origem do Espelho Sagrado, o primeiro tesouro da Família Imperial foi contado em “Amaterassu Omikami - a Augusta Deusa Sol”, já publicado neste jornal..

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