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Arquivo NippoBrasil - Edição 059 - 29 de junho a 5 de julho de 2000
 
A vingança dos quarenta e sete samurais
Parte 3

(Por Claudio Seto)

No século XVIII, na era Guenroku, governado por Tokugawa Tsunayoshi, aconteceu um incidente envolvendo vingança e seppuku que se tornaria famoso como o caso dos shijushiti-shi (47 guerreiros). Um daimyo (feudatário), Asano no Kami Naganori, havia sido escolhido para recepcionar o shogun e como o cerimonial era muito complexo, pediu ajuda para um dos mais altos funcionários, Kira Kozukenossuke Yoshinaka, o grande mestre de cerimônia do shogunato.

Mas o ganancioso Kira propositalmente ridicularizou e humilhou Asano em público. Asano, segundo os métodos de conduta dos samurais (bushi) atacou Kira para tentar restabelecer sua honra, mas não teve sucesso. Julgado, o daimyo foi condenado ao seppuku pelo shogunato. Kira, muito bem visto na corte, não foi nem sequer repreendido.

Sem o seu mestre, os guerreiros de Asano se reuniram secretamente e resolveram vingá-lo. Para não levantar suspeitas, os 47 samurais passaram meses desonrando suas famílias, entregues às bebidas e mulheres. Tudo isso para mostrar que haviam esquecido da tragédia com seu líder.

A Vingança

Na noite de 14 de dezembro de 1702*, Kira Kozukenosuke ofereceu uma grande festa regada a saquê. E todos seus guerreiros acabaram ficando bêbados. Sem que ninguém esperasse, o profundo silêncio dos bairros aristocráticos de Edo, adormecidos sob a neve, foi rompido pelo som de tambor do capitão Oishi, o tinido das armas, os gritos de combate. Os quarenta e sete fiéis servidores, armados dos pés à cabeça posicionaram-se em frente a residência de seu inimigo. Usando faixas na cabeça e roupas confeccionadas especialmente para a ocasião, os vingadores arremessaram escadas de cordas sobre o muro coberto de neve e adentraram na residência de Kira.

Travou-se um ligeiro combate no pátio, mas os poucos guardas que ainda estavam sob o efeito do álcool não constituíram barreira. Em pouco tempo os portões foram abertos. Com a planta da casa nas mãos, tomaram de assalto a residência de Kira Kozukenossuke, abatendo os samurais que encontravam nos corredores a golpes de espada, invadiram os quartos, e rumaram direto para a alcova de Kira. Este não se encontrava lá, mas os vingadores perceberam que os acolchoados ainda estavam quentes. e ele teria fugido ao ouvir gritos de luta pelos corredores.

Os ronin sabiam que deveria estar escondido em algum ponto do cercado. Procuraram por todas as partes, mas não o encontraram. Finalmente desconfiaram que havia alguém escondido dentro da cabana de carvão no depósito. Um dos ronin enfiou a lança através da parede da cabana, e sentiu que atingiu alguma coisa. Mas ao retirá-la não havia sangue. O fato é que Kira fora atingido, porém, ao ser recolhido a arma, ele limpava-a com a manga do kimono. De nada adiantou o seu estratagema, porque a terceira fincada atingiu seu braço. Quando os vingadores obrigaram-no a sair, ele afirmou que não era Kira, apenas seu chefe de depósito.

Naquele momento, um dos quarenta e sete lembrou-se do ferimento na testa produzido em Kira pelo daimyo Asano, no palácio do Shogun. Através da cicatriz identificaram Kira e convidaram-no cortesmente à praticar o harakiri de imediato. Kira recusou-se, o que comprovava, evidentemente, a sua covardia. Daí, com a arma que o próprio Assano utilizara no seu harakiri, eles deceparam a cabeça do inimigo.

O dia amanheceu com a neve manchada de sangue. Então, o cortejo dos quarenta e sete ronin, em boa ordem militar, levando a espada duplamente ensangüentada e a cabeça decepada, atravessou a cidade de Edo, para ir depositar no templo Sengakuji, sobre o túmulo de Asano vingado, a cabeça do inimigo.

A notícia correu como rastilho de pólvora, Edo inteira encheu-se de entusiasmo com a proeza dos quarenta e sete. Suas famílias e sogros, que haviam duvidado deles, correram a abraçá-los e a render-lhes homenagens. Poderosos senhores ofereceram hospitalidade ao longo do caminho. Prosseguiram eles até o túmulo e lá depositaram não apenas a cabeça e a espada, como também uma comunicação escrita ao seu senhor, ainda conservada.

Hoje aqui viemos prestar homenagem...
Não ousaríamos nos apresentar diante de vós, sem que houvéssemos consumado a vingança por vós iniciada. Cada dia que aguardamos, afigurou-se-nos três outonos...
Acompanhamos o senhor Kira até aqui ao vosso túmulo.
A espada que tanto valorizastes no ano passado e a nós confiastes, devolvemos agora. Tomai-a e golpeai a cabeça do vosso inimigo uma segunda vez, assim vos rogamos, e para sempre dissipai o vosso ódio.

Eis o respeitoso relato dos shijushiti-shi (quarenta e sete samurais).

O bakufu deliberou durante muito tempo: durante dois meses, os ronin colocados em detenção em várias famílias nobres e tratados com muita consideração, esperaram o veredicto. A simpatia e admiração públicas pelos bravos ronins foi geral e praticamente unânime. Dentro do próprio shogunato, existiam opiniões favoráveis à absolvição dos guerreiros. Mas os quarenta e sete haviam violado leis fundamentais do bakufu, destinada a manter a ordem e a paz, praticando vingança não declarada. Pouco meses depois, eles receberam a ordem de se imolarem praticando o harakiri. Todos os quarenta e sete fazem o seppuku com a mesma segurança e sangue frio com que executaram a vingança.

O acontecimento transformou-se numa legenda, num verdadeiro mito. Sob a denominação de Tchushingura (Tesouro dos Corações Fiéis) já em 1706, Chikamatsu* apossou da história. A sua narrativa se repete ainda hoje com sucesso em toda forma de representação artística: teatro, teatro de marionetes, kabuki, cinema, série de televisão, literatura, histórias em quadrinhos, narrativa falada (kôdan), conquistaram definitivamente os corações dos japoneses.

 

COMENTÁRIOS:
Na era Guenroku*, quando aconteceu o caso dos “Quarenta e Sete Súditos Fiéis”, os princípios fundamentais do governo Tokugawa eram guiados pelo confucionismo, doutrina ética chinesa, onde o dever e a hierarquia eram levados muito à sério. O regime Tokugawa era autoritário, mas seu absolutismo não aspirava a totalidade: a moral de clã e de família era respeitada, na medida em que, por sua parte, a vingança tomasse o cuidado de se isentar de qualquer designo político. Os autores do Tchushingura* tiveram uma visão otimista: através das peripécias mirabolantes, o bem triunfa, e a paz do Estado se harmoniza no final com as exigências da lealdade vassálica.
Era pela instituição do seppuku que essa conciliação podia se operar. Na interseção da ordem publica e da honra feudal, a morte voluntária recebia sob a forma de tsumebara o duplo sentido de um expiação e de uma apoteose. Essa ambigüidade manifestava a articulação dos dois elementos da substância ética: enquanto esse ferrolho agüentasse, elas não entrariam em divergência. A morte, com a condição de ser aceita de antemão, dava satisfação à honra tanto quanto ao Estado. Desse modo, os quarenta e sete podiam, portanto, considerar-se como já mortos e assim evitar de serem considerados assassinos.

Na época respeitava-se a vingança como virtude, do mesmo modo que a gratidão. Para com quem nos fez o mal como para com quem nos fez o bem, o dever (gui, guiri*) prescreve que sejamos justos e não esqueçamos nunca uma nem outra dívida. Esse dever de vingança estabelece na morte voluntária a prova de sua sinceridade. Abre-se o ventre, bota toda entranha para fora e mostra que nada tem a esconder. Se alguém tem que se vingar, que o faça na condição de morrer depois, para não dar continuidade ao ódio entre as famílias. O ato em si, demonstra assim que o ódio foi ultrapassado e que a ação foi de acordo com a justiça.

Além de grande lição de ética, o efeito moral do harakiri vinha juntar-se a vantagens políticas: uma sanção capital, aceita antecipadamente, limitava os riscos de contágio em escalada, que toda vingança comporta. Quando os quarenta e sete atravessaram em cortejo a cidade de Edo, corriam o risco de serem atacados por homens do daimyo Uesugui, aliado a Kira. Teriam sido defendidos, pela clã Matsudaira, da qual Asano era um dos caçulas. Até onde isso teria chegado, nessa progressão não se sabe. Mas sabia-se que eles iam morrer, que tinham escolhido seu destino: passaram rodeados pelo respeito de seus próprios inimigos. Ninguém os atacou, e a vingança claramente circunscrita extinguiu-se com eles.

 

NOTAS:
* Alguns autores dão essa data como 30 de janeiro de 1703, provavelmete este foi o dia do seppuku dos 47.

* Chikamatsu Monzaemon (1653-1724), o maior dramaturgo do Japão. Escreveu centenas de peças históricas (jidaimono) e domésticas (sewamono).

* Era Guenroku, 1688-1704 governado pelo shogun Tokugawa Tsunayoshi. No ano de 1703 o imperador do Japão era Higashiyama Tenno.

*Tchushingura (ou Chushingura), “O Tesouro dos vassalos fiéis” , drama escrito por Takeda Izumo (1691-1756) em colaboração com Miyoshi Shosaku e Namiki Senryo em 1748. É a mais célebre obra inspirada na vingança dos Quarenta e Sete Samurais. (Nota: o termo certo seria “47 ronins” já que estavam sem amo. Porém, agiram como verdadeiros samurais numa época em que a classe guerreira estava em decadência, daí, lhes é atribuído o termo bushi (samurai), por questão de dignidade.)

*Guiri, obrigação, dever, dívida moral que liga o sujeito a qualquer pessoa da qual tenha recebido benefício ou favor.

 
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