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Arquivo Edição 264 - 26 maio a 1 de junho de 2004 - Especial - Portal NippoBrasil
 

Ikebana, preciosa herança da imigração

Galhos, folhas secas, frutos, grama, sementes e até ferro, vidro e madeira. Vários materiais podem ser utilizados nessa arte floral que também proporciona a paz interior


Do rikka, um dos estilos clássicos da Ikenobo, derivou o rikka shinputai, um estilo com características mais atuais
 

Arquivo Jornal Nippo-Brasil

A palavra ikebana deriva de ike e hana, pronunciada bana. Ike vem de três verbos: ikeru, colocar ou arrumar flores; ikiru, viver, tornar vivo ou chegar à essência de algo; e ikassu, colocar sob a melhor luz, ajudar a encontrar a verdadeira essência, ou ainda, tornar a vida mais pura. Hana, por sua vez, significa flor. Os profundos significados combinam perfeitamente com essa arte tão sensível e criativa.

O Ikebana é um dos legados deixados pelos imigrantes, chegando ao nosso País junto com um grande número de japoneses. “No Japão, o Ikebana chegou junto com o budismo”, conta a mestra de Ikebana Ikenobo, Satiko Suzuke. A princípio, a prática da arte floral veio da China, onde um diplomata japonês tinha o costume de observar monges budistas enfeitando seus templos com arranjos de flores, trabalhando na elaboração dos arranjos como oferendas. Quando voltou ao Japão, o diplomata resolveu abandonar a carreira e a vida palaciana para ser um monge. Passou a morar na beira do lago e começou a criar seus arranjos florais, dando início a uma arte que viria a adquirir suas próprias regras e conceitos. Daí vem o nome da primeira escola de Ikebana: a Ikenobo, que significa “monge do lago”.

O rikka, um dos primeiros estilos do Ikenobo, originou-se do tatehama, o ato de colocar flores nos altares dos deuses. “Rikka é a paisagem do universo”, diz Satiko. “É um estilo elaborado, em seus arranjos, podem ser encontrados até oito elementos, entre galhos e flores”, explica. Do rikka, vieram as bases para os estilos shoka, com seus arranjos quase sempre em forma de meia-lua; moribana, baseado na estética natural, com ênfase descritiva; nagueire, com seus arranjos mais naturalistas e em vasos altos; e jiyuka, os arranjos de estilo livre.

Justificando seu início e prática entre monges, durante séculos, o Ikebana foi um privilégio masculino. “Além disso, era uma arte que exigia grande esforço físico, já que os religiosos elaboravam arranjos monumentais, utilizando até mesmo troncos de árvores”, conta a mestra de Ikebana Ikenobo, Emília Tanaka. Muito tempo depois, e já com normas definidas, essa arte floral alcançou palácios e popularizou-se entre nobres e samurais, os lendários guerreiros que, entre uma batalha e outra, relaxavam montando delicados arranjos de flores. As mulheres só tiveram acesso à prática do Ikebana no século XIX.

Do Ikenobo, berço de todos os preceitos do Ikebana, derivaram várias outras escolas, seguindo linhas diferentes e com seus próprios estilos. Estima-se que, no Japão, existam mais de 3 mil estilos de Ikebana. Hoje, em São Paulo, existem várias escolas praticantes de Ikebana, além da Ikenobo (veja box – serviço). “São escolas que divulgam a arte do Ikebana de acordo com suas particularidades, e todas elas são afiliadas à Associação de Ikebana do Brasil”, explica Emília Tanaka.

Todos os anos, o Gaimusho, o Ministério das Relações Exteriores do Japão, prestigia o Ikebana produzindo um calendário que é distribuído em várias partes do mundo. Para tanto, são convidadas quatro escolas de Ikebana para a produção dos arranjos: a Ikenobo, a Soguetsu-Ryu, a Ohara-Ryu, e a Koryu Shotokai. Conheça um pouco sobre estas outras três escolas lendo os boxes a seguir.


Sogetsu-Ryu: rompimento com os antigos padrões


CONTEMPORANEIDADE - Sogetsu
acompanha a evolução da arte

“Um punhado de flores e algumas ramas sabiamente colocadas se transformam em algo muito diferente desses elementos. Trata-se de algo novo, produto de combinações imaginação e espírito criador. E, desta forma, Ikebana expressa tanto a intimidade das flores como a personalidade de seu autor”, assim dizia Sofu Teshigahara (1900-1979), fundador da escola Sogetsu-Ryu. Fundada no Japão em 1927, essa escola representa a contemporaneidade no Ikebana. Baseada na tradição japonesa, mas também atendendo a mudanças necessárias numa nova perspectiva da evolução da arte como um todo, a Sogetsu proporciona uma arte de arranjos florais ilimitados, sem se prender a conceitos antigos.

Na Sogetsu, o Ikebana é a expressão de seu autor. Em seus estilos, os galhos são mudados de posição de acordo com os princípios desenvolvidos pela escola, com o objetivo de alcançar novas formas e modelos de Ikebana. “Existe uma visão aqui no ocidente de que tudo o que vem do oriente seja impregnado de simbologia”, explica a presidente da Associação Sogetsu-Ryu, Hilda Kuniy Tagusagawa. “Nos estilos da Sogetsu, nem sempre a simbologia será mais importante do que o resultado visual produzido pelos arranjos.”

 

 


Ohara-Ryu: revolução pelas flores


INOVAÇÃO - Unshin Ohara estudava o cultivo das flores

Unshin Ohara introduziu um importante e inovador diferencial na arte do Ikebana: o manejo das flores. Em meados da Era Meiji (século XIX), quando a cultura européia começou a chegar no Japão, grandes mudanças afetaram a vida dos japoneses. Ohara, pela arte do Ikebana, deu a sua contribuição. Enquanto os estilos tradicionais dessa arte floral trabalhavam com materiais emergindo de um único ponto do arranjo, o criador da escola Ohara-Ryu trabalhava com as flores inclinadas em seus arranjos e começou a lidar com materiais diferentes, utilizando vários tipos de suporte para a arrumação das plantas no vaso. Mas a inovação de Ohara não parou por aí.

Ele organizava reuniões com seus discípulos para estudar o cultivo das flores e as características naturais de cada planta. O objetivo era saber que tipo de inclinação elas poderiam ter e de que forma poderiam ser aproveitadas nos arranjos. “Unshin não se preocupava apenas com os arranjos, mas também com o cultivo das plantas até o momento de serem usadas nos arranjos”, diz a professora de Ikebana Ohara-Ryu, Ritsu Kawaoka.


Da escola de Ikebana Ikenobo, o jiyuka (esq.) é um estilo livre; o moribana (dir.) é um dos estilos clássicos, que se baseia na estética natural das plantas



MISTURA - Materiais diversificados

Koryu Shotokai: versatilidade

Como as outras escolas surgidas antes da Segunda Guerra Mundial, a Koryu tem duas vertentes: a clássica e a livre. Fundada em 1769, por Itsuchiken Imaissofussochiu, a Koryu, ao lado da Ikenobo, da Ohara-Ryu, e da Sogetsu-Ryu é uma das escolas que produz arranjos de Ikebana para o Palácio Imperial do Japão. “A Koryu tem uma versatilidade. Possui o estilo clássico e o livre, no qual se pode usar qualquer material nos arranjos, como vidro, madeira e até mesmo ferro”, explica Olga Yasuko Kikuchi, diretora da escola Koryu Shotokai em São Paulo.

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