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Sábado, 18 de setembro de 2021 - 19h04
Arquivo Edição 255 - 28 de abril a 4 de maio de 2004 - Especial - Portal NippoBrasil
 
A invasão nikkei nas artes
Em 8 de maio, comemora-se o Dia do Artista Plástico. No Brasil, segmento teve forte influência dos imigrantes japoneses e seus filhos, que tornaram-se referência nas áreas da pintura, cerâmica e escultura.


Tomie Ohtake: uma artista completa


Manabu Mabe: saudades desde 97


Flávio Shiró: referência de uma geração


Tomoo Handa: uma lembrança eterna

 

Arquivo Jornal Nippo-Brasil

Desde que imigraram para o Brasil, os japoneses vêm se destacando em diversas áreas, que vão desde a agricultura até a tecnologia. E com a arte não poderia ser diferente. As artes plásticas foram um dos caminhos trilhados pelos imigrantes para extrapolar os limites da comunidade nikkei. Foi a forma encontrada por eles para que pudessem se expressar.

Foi nela que se tornaram grandes mestres. Nomes como Manabu Mabe, Tikashi Fukushima e Tomoo Handa, são citados até hoje quando se fala em arte brasileira. Em comemoração ao Dia do Artista Plástico, celebrado em 8 de maio, o Nippo-Brasil reuniu os principais artistas plásticos nipo-brasileiros que marcaram a história da arte no Brasil e conquistaram também reconhecimento internacional, seja na pintura, na escultura ou na cerâmica.

Os samurais da pintura

Falar em arte no início do século XX era coisa para poucos. Se para os brasileiros já era difícil ingressar no meio artístico, tamanha discriminação e preconceito, que o diga para os japoneses que ainda precisavam enfrentar outros desafios: a língua do país desconhecido e as tradições da nação de origem.

Porém, muitos nikkeis quebraram barreiras e conseguiram se destacar por seus trabalhos inovadores e inusitados. Manabu Mabe foi um deles. Nascido em 1934 na província de Kumamoto, no Japão, veio ao Brasil aos 10 anos de idade. A paixão pelas artes o acompanhou desde a infância, porém, o pai não permitia que abandonasse o trabalho no campo para se dedicar às artes. Somente na década de 40, logo após a morte do pai, que Mabe veio expor suas obras.

O sucesso foi inevitável. Nos anos 50, com a expansão do abstracionismo, seus trabalhos começaram a se destacar tanto que no ano de 1959 foi eleito pela revista norte-americana Time “o ano de Manabu Mabe”. Foi nesse período que o pintor participou das principais mostras e conquistou inúmeros prêmios, entre eles o de Melhor Pintor Nacional da V Bienal de São Paulo, o Prêmio Baun da I Bienal de Jovens de Paris e um prêmio aquisição no Dallas Museum of Fine Arts, no Texas (EUA). Em 99, foi eleito pela revista Isto É o “Brasileiro do Século”, na categoria Arquitetura e Artes Plásticas. Diabético, Mabe veio a falecer em 1997, aos 73 anos.

Outro grande nome das pinturas foi Tomoo Handa. O japonês migrou com a família para o Brasil aos 11 anos de idade, em 1917. Desde a infância, sonhava em ser pintor. No início dos anos 30, quando mudou-se Lins para a capital paulista, matriculou-se na Escola de Belas-Artes de São Paulo, onde se diplomou em 1935. Já no ano seguinte, realizou sua primeira mostra individual no Nippon Club.

Além de ser um dos idealizadores do Salão de Arte da Colônia Japonesa em São Paulo, em 1952, Handa destacou-se também por participar de grandes exposições, como o Salão Paulista de Belas Artes, em 1934 e 1935; a I Mostra do Grupo Seibi, em 1937; e a Mostra do Grupo Guanabara, de 1950 a 1959. Além de pintor, Handa tornou-se escritor. É dele a autoria do livro O Imigrante Japonês - História de sua Vida no Brasil, uma autobiografia de 828 páginas.

Quando se fala em pintura, impossível não pensar em outros grandes artistas nipo-brasileiros. Teiiti Suzuki, Kazuo Wakabayashi, Tomoshige Kusuno, Tadashi Kaminagai, Flávio Shiró, Masso Okinaka, Yoshiya Takaoka e Tsuguharu Foujita, entre outros, também estão na lista dos principais pintores de todas as épocas. “Os artistas japoneses e seus descendentes enriqueceram a arte brasileira, renovando-a com novos modos de ver e sentir uma nova sensibilidade, uma sutileza”, analisa o crítico de arte José Roberto Teixeira Leite, ex-diretor do Museu Nacional de Belas Artes. “Eles se destacaram pela fatura requintada, a sensibilidade cromática e o intenso conteúdo poético”, completa.

E, claro, que não poderíamos deixar de destacar nessa lista os trabalhos de Tomie Ohtake, uma das pintoras de maior representatividade na arte brasileira do século XX. “Tomie seria uma presença feminina bastante rara nesse grande número de artistas da colônia japonesa. Da figuração passa nos anos 60 a uma pintura expressiva, de grande qualidade, porém, já assinalando uma economia cromática que caracterizaria sua obra”, diz a historiadora e crítica de arte, Aracy Amaral.


Sangue artístico


TRADIÇÃO - Takashi foi influenciado pelo pai Tikashi

Alguns artistas plásticos nikkeis puxaram de seus pais não apenas o sobrenome ou as características físicas, mas também o sangue artístico. Foi o caso do pintor Yugo Mabe, 49, filho de Manabu Mabe. Ele começou a pintar aos 5 anos de idade. Ao lado do pai e dos amigos dele, cresceu dentro do universo artístico. “Como pai, desde então, ao invés de ensinar-lhe a técnica ou a pintura propriamente dita, venho tentando incurtir-lhe mais as qualidades pessoais que julgo importantes e necessárias para se tornar um respeitável artista”, costumava dizer Manabu.

Assim como o pai, Yugo participou de inúmeras exposições, entre elas, sua primeira mostra individual, realizada na Documenta Galeria de Arte, em 1980; o 1º Salão Bunkyo na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, onde ganhou medalha de bronze, em 1972; e a 4ª Exposição de Belas Artes Brasil-Japão.

Yugo não é o único. Takashi Fukushima, 54, também trilhou os caminhos do pai, o também pintor Tikashi Fukushima. Takashi começou sua carreira artística em 1969, quando expôs seus trabalhos no Salão Seibi, na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, em São Paulo. De lá para cá, participou de diversas exposições, inclusive no exterior. “Meu pai me deu uma pré-educação. Me levava em exposições e sempre tive um envolvimento muito forte com as artes. Aos 15 anos, ele já emprestava telas para mim, onde eu pintava paisagens imaginárias”, lembra Fukushima. “Sou um grande admirador do meu pai. Ele foi meu grande inspirador, nunca se opôs, me ensinou e apoiou”.

Segundo Takashi, ser filho de um pintor consagrado dentro da arte brasileira foi um dos fatores importantes para sua carreira. “Abre muitas portas, mas se não tiver talento, não vai a lugar nenhum”, conta. E lamenta que a profissão de artista plástico tem hoje pouco reconhecimento. “Sempre há um bloqueio e uma obstrução da família porque ser artista não é regularmente uma profissão. Hoje, privilegiam as instituições e não o artista, o produtor de arte final. E, infelizmente, o artista ainda sofre preconceito de ser chamado de comercial”, conta.


Arte em argila


CERÂMICA - Kimi Nii: “admiro a estética japonesa”

Não é apenas na pintura que os nikkeis se destacaram. Uma das ceramistas nipo-brasileiras mais conceituadas no Brasil é Kimi Nii, 57. Formada em desenho industrial, trabalhou vários anos como designer gráfica, mas seu sonho era mesmo de ser artista plástica.

A carreira como ceramista começou como um hobby. Depois de fazer um curso, em 87, e conforme foi produzindo suas próprias peças, viu que levava jeito para a coisa. “Eu estava eufórica. Foi um momento de realizações”, lembra Kimi. Suas obras, inspiradas na natureza, atraem os mais variados gostos. Segundo ela, suas peças sempre têm alguma influência oriental. “Não é proposital, mas não tenho como fugir disso. Admiro a estética japonesa influenciada pelo zen budismo, e acho que uma característica minha é ser racional e um pouco poética”, explica a ceramista que já participou de exposições em diversos estados do País - como São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Espírito Santo -, além de mostras realizadas no Japão, França, Itália, Argentina e Canadá.

Além de Kimi, outros nikkeis também consagraram-se na cerâmica, como Hideko Honma, Shoko Suzuki, Regina Tsuchimoto e Akinori Nakatani.


Grupo Seibi

O Grupo Seibi foi um grupo de destaque dentro das artes plásticas brasileiras. Ele surgiu em março de 1935 por artistas japoneses que tinham como objetivo criar um espaço para discussões onde pudessem promover o aprimoramento técnico e a divulgação de suas obras.

O grupo foi composto por grandes nomes da pintura nipo-brasileira, como Flávio Shiró, Manabu Mabe, Massao Okinaka, Shigeo Nishimura, Tadashi Kaminagai, Takeshi Suzuki, Tikashi Fukushima e Tomie Ohtake. “O Grupo Seibi surgiu num momento em que eram comuns os artistas se organizarem em grupamentos, especialmente em São Paulo. Uniam-se para resistir à indiferença do meio, para se amparar mutuamente e se educarem uns aos outros”, explica José Roberto Teixeira Leite.

“Se mesmo os artistas brasileiros constituíam uma ilha em sua própria comunidade, isso se tornava mais grave com os japoneses, separados pela língua e pelos costumes da sociedade brasileira. Talvez esse dificuldade de os japoneses e seus descendentes se comunicarem pela fala e pela escrita os tenha levado, em tão grande número, a buscar expressar-se através das artes visuais, o que acabaram fazedndo com o maior sucesso”.


Os nikkeis da escultura


IMAGEM - Yutaka Toyota: “sempre trabalho com o reflexo”

A escultura foi outra área encontrada pelos nikkeis para representar a arte nipônica. Entre os principais escultores nipo-brasileiros do País está Yutaka Toyota, 73. Foi no final da década de 50, que Toyota passou a ingressar nas artes. Participou de diversas exposições nacionais e internacionais, entre elas uma mostra individual na Galeria Matsuya, em Tóquio, no ano de 1957; a 7ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo, em 1963; e da 2ª Bienal Nacional de Artes de Salvador, em 1968.

Ao longo desses anos, Toyota ainda recebeu inúmeros prêmios: Medalha de Ouro no 12º Salão Paulista de Arte Moderna, em 1963; Medalha de Konju-Hosho, recebida pelo primeiro ministro do Japão, em 1979; e melhor escultor de 1990 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), entre outros. “Em minhas obras, sempre trabalho com o reflexo. Mas não é o mesmo reflexo dos espelhos, que refletem a verdadeira imagem. É uma imagem distorcida, em que toda a natureza, o ambiente, entra dentro da imagem”, explica o escultor.

Toyota realizou alguns trabalhos de pintura no início de sua carreira. Porém, a convivência com outros artistas fez com que ele alterasse sua visão estética e passasse a trabalhar com a escultura como uma criação ambiental. Além dele, outros escultores também se consagraram na arte brasileira, como Megumi Yuasa, Lídia Kinue Sato e Masayuki Sato.

 
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