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Arquivo Edição 215 - 16 a 22 de julho de 2003 - Especial - Portal NippoBrasil

Kataná: a preciosa lâmina samurai

Aço e Flor
Quem nunca viu que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz, e a forte flor que a faca faz
na fraca carne, um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu a ternura que vai
no fio da lâmina samurai esse, nunca vai ser capaz.
(Paulo Leminski)

Para Nelson Rodrigues, uma faca ordinária, dessas compradas nas feiras, era instrumento suficiente para um suicídio, sempre motivado pelo desespero. Para o japonês, ao menos o que nele tem embutido o espírito samurai, os dois elementos - a faca e o desespero - não podem existir no ato derradeiro de sua vida. O objeto ideal é o tantô, uma espada pequena, cara e manufaturada por artesãos refinados. O sentimento, o do resgate da honra perdida. Foi o que fez, por exemplo, Yukio Mishima, um dos maiores nomes da literatura contemporânea.

O suicídio, chamado de seppuku ou harakiri, deve seguir o seguinte ritual: a pessoa toma um banho para purificar o corpo e a alma; vai ao local da execução e senta à maneira oriental; pega a espada e enfia no lado esquerdo do abdômen, considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito do povo japonês; em seguida puxa a lâmina para cima. A morte é lenta e dolorosa, mas o samurai não pode demonstrar dor nem medo.

Apesar de sombrio, o paralelo evidencia a estreita ligação entre a lâmina e o espírito nipônico. Introduzida no Japão feudal por volta de 900 D.C., somente dois séculos mais tarde a espada ganhou traços próprios. Estima-se que, entre os anos de 1300 e 1400, um desses objetos poderia custar o equivalente a uma casa. O fabricante mais conhecido da época era Massamune.

Nos séculos posteriores, porém, a manufatura das lâminas deixou de ser arte para virar máquina de guerra, e entra em declínio. Um movimento iniciado no último terço da Era Edo (1603 a 1868), porém, resgatou o conceito de espada artística. Chamado de Fukkotô, teve no espadeiro Minamoto Kiyomaro e o teórico Massahide seus maiores expoentes. São deste período os mais belos objetos já fabricados. “Este grupo de artesãos passou a estudar a espada clássica japonesa. O Fukkotô sintetizou 700 anos de tradição em forjamento e fornitura”, destaca Laércio Gazinhato, um grande estudioso de armas orientais.

A cultura do kataná, a mais conhecida das espadas, ganhou o ocidente na primeira metade do século passado. Foram duas as principais vias de acesso: através dos soldados americanos, na Segunda Guerra Mundial; e pelas mãos dos imigrantes.

Hoje, o espírito da arma nipônica pode ser detectada nos mais variados campos. Virou tema de filmes de Hollywood; está no esporte, através do kendô; colecionadores pagam fortunas por um exemplar raro; crianças simulam lutas entre clãs nos video-games; e, até nas empresas, é usado em palestras de motivação.

O curioso é que a arte da espada vem atraindo mais os não-nikkeis. “O interesse é uma coisa que vem de dentro, não sei explicar o por quê. É como uma atração. Quando era adolescente buscava o lado mais técnico da cultura. Hoje, após algumas experiências procuro entender a relação entre a parte espiritual e a harmonia com os fatos cotidianos”, explica Rodrigo Dantas Gonçalves, professor universitário que escreve artigos sobre a cultura japonesa. “Este conhecimento me ajuda no auto-controle frente aos desafios da vida e a buscar todo o potencial que existe em mim”, completa.

 

O kataná brasileiro

O Brasil, segundo Gazinhato, é o único país, fora o Japão, que reuniu em um determinado período três espadeiros de kataná: Yoshisuke Oura, Kunio Oda e Tomizo Ishida, todos imigrantes nascidos no arquipélago. Ele fez um estudo sobre cada um deles. “É importante destacar isso. Enquanto que, nos Estados Unidos, os caras estavam se preparando para a Guerra, aqui se fazia espada e de boa qualidade”, enfatiza. O único ainda vivo é Ishida, que está ativo, em Mairiporã (SP).




• Yoshisuke Oura (1905 a 2000)
Proveniente de uma tradicional família de espadeiros da província de Miyagi, Oura chegou ao Brasil aos 31 anos. Foi ele quem produziu a primeira espada em solo brasileiro. Em Suzano (SP), viveu da fabricação de instrumentos agrícolas. Manufaturou entre 50 e 70 katanás em toda a sua vida. Suas lâminas são consideradas as melhores já fabricadas no País. Oura morreu aos 95 anos, em 2000. É o mais valorizado dos espadeiros “brasileiros”.

 



• Kunio Oda (1912 – 1992)
Também membro de uma família produtora de espadas, Oda aprendeu a arte com o avô paterno e produziu sua primeira lâmina aos 18 anos. Em 1957 chegou no Brasil e trabalhou na agricultura, no interior paulista. Somente aos 56 anos, já vivendo na capital, começou a atender encomendas. Famoso, adotou o nome artístico Kunihiro. Produziu aproximadamente 350 unidades. Uma delas, inclusive, foi utilizada por um amigo que cometeu o harakiri (literalmente, corte no estômago), em 1970, razão pela qual nunca mais fabricou tantôs, espadas apropriadas para este fim. Oda faleceu em 1992, aos 80 anos.
• Tomizo Ishida (1924 - )
Único dos espadeiros “brasileiros” que não descende de famílias produtoras no Japão. Nasceu na província de Gumma e chegou no Brasil aos 9 anos de idade. Ishida aprendeu a arte da forja fazendo instrumentos agrícolas, em Mirandópolis (SP), onde sua família trabalhava em uma fazenda. Em 1949, aos 25 anos, mudou-se para Mairiporã, cidade próxima a São Paulo. Foi relojoeiro e ourives. Passou a fazer espadas em 1962. “Comecei a fazer artesanato (instrumentos agrícolas) quando estava na fazenda. Eu vivia no meio do mato, não tinha cultura nem nada. Então, à noite, eu tinha sonhos com colegas estudantes progredindo e eu não. De dia comecei a fazer artesanato para esquecer esse complexo. Quando saía um objeto perfeito dava a sensação”, conta. Ishida teve as primeiras lições através de livros enviados por parentes do Japão. Depois, aprimorou a técnica com Oura e Oda. Adaptou regras clássicas do espadeiro, mudando desde o encaixe da lâmina até a sua espessura. Os ornamentos em ouro, que aprendeu na antiga profissão de origem, lembram muito as do movimento Fukkotô. São mais de 300 as espadas de sua autoria.
 
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