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Arquivo Edição 230 - 29 de outubro a 4 de novembro de 2003 - Especial - Portal NippoBrasil

MEMÓRIA
Naomi Munakata: Uma regente em “estado de alfa”

Entrevista realizada em outubro de 2003


A regente (à frente) esteve no Coral da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - Osesp desde 1995
(Faleceu em 26 de março de 2020, em decorrência da pandemia de COVID-19.)

 

A relação entre a japonesa Naomi Munakata, e a música erudita veio do berço. Para se ter idéia, seu pai, também músico, montou um grupo vocal no navio que trouxe sua família para o Brasil. Isso aconteceu quando ela tinha apenas dois anos de idade. Até ser considerada um dos nomes mais importantes do coral brasileiro, ela percorreu um caminho vencedor. Foi regente do Theatro Municipal de São Paulo, estudou música na Universidade de Tóquio e foi discípula de um dos maiores nomes do coro mundial, o sueco Eric Ericsson.

Desde 1995, ela é regente do Coral da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), um dos melhores do País. Naomi, solteira e sem filhos, é uma das finalistas do Prêmio Cláudia e concorre com a cineasta, Kátia Lund, e a professora de literatura, Tânia Rösing, ao posto de mulher que mais contribuiu para a cultura em 2003. O resultado sai em dezembro. Aqui, ela fala sobre música, a conturbada relação com a comunidade nipo-brasileira e a influência japonesa em seu trabalho.

 

Nippo-Brasil: Como surgiu seu interesse pela música erudita?
Naomi Munakata:
Meu pai era pastor da igreja protestante, mas era regente também. No navio em que viemos para o Brasil, ele montou um grupo como passatempo. Aqui, ele montou um coro da colônia (Assunaro), que sobreviveu por um bom tempo. Eu convivia com isso praticamente todos os dias. A gente também cantava na igreja. Todos os filhos foram, à princípio, obrigados a tocar piano. Depois, meu irmão mais velho quis tocar guitarra e saiu fora. O mais novo queria jogar bola e saiu fora. Eu fui a única que continuou.

NB: O que fez para se tornar regente?
NM:
Quando eu tinha uns 16 anos, como gosto muito de mexer as mãos, resolvi que ia fazer regência. Então, meu pai sugeriu que eu tocasse um instrumento de orquestra. Estudei violino, prestei faculdade e entrei no Instituto Musical de São Paulo. Aí, entrei em vários corais brasileiros. Fui em 86 para o Japão para a Universidade de Música de Tóquio. Em 1989, fui convidada para ser assistente do coral do Theatro Municipal. Fiquei um tempo, mas recebi uma bolsa para estudar na Suécia (1990). Fiquei lá quase um ano. Em 95, fui para o Coral da Sinfônica do Estado, que é antecessor do Coral da Osesp.

NB: Como avalia os corais brasileiros?
NM:
O coro amador já esteve melhor. Na década de 70, as pessoas se divertiam de forma mais artesanal e uma das formas era o coro. Todo mundo, à princípio, tem voz. É muito fácil entrar em um coro, que é também um meio social interessante. Então, as pessoas freqüentavam muito. Com o avanço da tecnologia, todo mundo tendo computador em casa, o trânsito ficando cada vez pior, os coros acabaram. Então, a qualidade dos coros tem caído muito. Ao mesmo tempo, o coral profissional aumentou. Até há quatro anos, existia coro mas se ganhava muito pouco. Hoje, são três no qual se ganha mais ou menos o mesmo. Tem concorrência e a qualidade melhora.

NB: Tem-se a idéia generalizada de que música erudita é coisa para rico. A senhora concorda?
NM:
Eu acho que não. É questão de hábito. É claro que o ingresso não é de graça, mas é barato. Aqui tem ingresso desde dez reais. Tem também os ingressos para pessoas de idade, que pagam metade. Se ainda pedir mais um pouco a gente deixa entrar de graça. Eu sinto uma resistência porque as pessoas não conhecem e não querem conhecer.

NB: Quais as qualidades que um bom regente deve ter?
NM:
Primeiro, precisa de muito estudo. Tem pessoas que têm mais facilidade, que se pode chamar de talento. Mas é basicamente estudo e muita vontade de vencer, porque barreiras e puxão de tapete é o que mais existe.

NB: O fato de ser japonesa tem influência em seu trabalho?
NM:
Existe no sentido de disciplina. Sou muito disciplinada e disciplinadora também. Já tive críticas: “nossa, a Naomi deve dar chicotada nos cantores”. Digamos que sou (crítica) até demais, mas os resultados são imediatos.

NB: Qual a sensação de concorrer ao Prêmio Cláudia?
NM:
Para mim é uma alegria e honra ser indicada. Acho que isso vai ser importante não só para minha carreira mas também para que as pessoas que lêem a revista conheçam o trabalho de música erudita.

NB: Quem é a mulher Naomi?
NM:
Sou tão dedicada, gosto tanto de música, que só penso nisso. No dia que alguém falar que eu estou proibida de fazer música, eu acho que morro. Se existe uma coisa que me liga com o lado espiritual, é através da música. Eu entro completamente em estado de alfa quando rejo. Estudar é penoso, mas a alegria e a realização disso é tamanha que eu não consigo trocar por nada. O meu lado pessoal vai por água abaixo porque eu me dedico completamente à música. Até as minhas plantinhas, coitadas, vivem sedentas.

NB: Como é chegar nesse “estado de alfa”?
NM:
É a hora em que não sinto mais a dor no pé, nem o cansaço. É quando a gente ultrapassa o limite do ar. Quando vejo o público totalmente paralisado depois que acaba a apresentação é porque consegui transmitir realmente. Já defini isso como um orgasmo.

NB: Existe uma apresentação que marcou?
NM:
Uma que marcou muito foi com um coro amador que eu tinha, muito pequeno. Eu estava completamente proibida de reger por causa de uma labirintite. Quando acabou, eu desmaiei. Mas foi um dos melhores concertos que eu regi. Tenho uma gravação desse concerto e foi realmente um dos melhores. Era para acontecer mesmo.

NB: Escuta músicas não eruditas?
NM:
Gosto de música brasileira e jazz. Mas sempre acabo indo para música erudita.

NB: Que músicos brasileiros gosta?
NM:
As obras do Chico (Buarque) são muito interessantes, tanto na parte poética como musical. Sou muito fã dele. Fora que ele é muito bonito também (risos).

NB: Tem alguma relação com a comunidade nikkei?
NM:
Não consigo trabalhar na colônia. Até tive uns convites mas eu não consigo porque é uma coisa muito fechada, machista. Meu pai fazia parte da diretoria do Bunka (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa), na área cultural. Quando ele foi embora (para o Japão), queria que eu continuasse. Mas é impossível trabalhar com os machistas japoneses. Eles barram tudo. Para mim eles estão atrasados no tempo. Eu sempre falo para eles o seguinte: “O Japão está evoluído e vocês, que são da colônia, estão parados no tempo”. Eles falam que não tem partitura, que não sei o quê. Isso quando ligar para o Japão era a coisa mais cara do mundo, até vai. Mas, atualmente, é só acessar a internet. Eu não tenho paciência.

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