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Quarta-feira, 27 de maio de 2020 - 3h29
Arquivo Edição 222 - 3 a 9 de setembro de 2003 - Especial - Portal NippoBrasil

As formas e cores de Ruy Ohtake

Ousadia do arquiteto gera polêmica, mas é prova inegável de seu talento.


Em forma de “melancia”, o Hotel Unique gerou muita polêmica

Aos 65 anos, Ruy Ohtake é um dos arquitetos mais conhecidos no Brasil e no mundo. Suas obras, com formas não muito convencionais e cores vibrantes, não permitem a indiferença. Prova disso são os formatos de “melancia” do Hotel Unique e de “carambola” do instituto que leva o nome de sua mãe, a artista plástica Tomie Ohtake. Tratam-se de construções criticadas por alguns, admiradas por outros, mas que, indubitavelmente, ratificam o talento, a criatividade e, sobretudo a ousadia de Ruy.

Calmo e de fala mansa, o arquiteto formado pela FAU/USP defende com voracidade suas obras e alega não dar bola para a torcida. Principalmente a que é contra. E a segurança do arquiteto parece ter fundamento. Afinal, são mais de 30 projetos de grande porte, entre eles o Hotel Renaissance, o Parque Ecológico do Tietê e os prédios do grupo farmacêutico Aché, na Dutra, que lhe renderam o prêmio na Bienal Internacional de Arquitetura, em 1973. O arquiteto tem ainda dezenas de publicações, palestrou em países como México, China, Itália e Estados Unidos, e possui sete livros editados. Amigo e admirador de Oscar Niemeyer, Ruy Ohtake falou sobre família, sonhos, carreira e, claro, sobre suas obras controversas.


Embaixada do Brasil em Tóquio: uma das obras do arquiteto no exterior

 
Nippo Brasil: Como surgiu a idéia de ser arquiteto?
Ruy Ohtake:
A vontade surgiu no colegial, quando comecei a gostar muito de formas, cores. Meu hobby sempre foi desenhar, e isso mostra que acertei minha área. Sempre tive também o desafio de fazer algo bonito, de entender e propor uma obra contemporânea.

NB: Sua mãe influenciou em sua escolha?
RO:
Com certeza sim. Mas acho que não foi uma pressão. Ela nunca falou que queria que eu fosse isso ou aquilo. Mas a prova de que a influência existiu é que tanto eu quanto meu irmão [Ricardo Ohtake] somos arquitetos. Na infância, falar de pintores como Portinari, Di Cavalanti e Picasso era muito comum em casa. Tenho certeza que essa influência facilitou a escolha pela arquitetura.

NB: E hoje, como é essa relação?
RO:
Hoje essa influência é dupla. De nós para ela e dela para nós. Todo o domingo nós almoçamos juntos. Eu, minha mãe [Tomie], Ricardo e meus dois filhos. Há mais de 20 anos fazemos isso. Acho isso muito bacana porque além da questão familiar, discutimos temas relacionados à cultura, à arte. São domingos muito ricos. Meus filhos adoram.

NB: E seus filhos, vão seguir a arquitetura?
RO:
Elisa tem 24 anos, estuda teatro na PUC e Rodrigo, de 18, acabou de entrar em arquitetura na FAU. Mas, assim como minha mãe fez comigo, eu nunca influenciei na escolha dele.

NB: Em suas obras, o senhor utiliza alguma referência de suas origens japonesas?
RO:
Essa é uma questão muito complexa. A arquitetura que eu pretendo fazer é uma arquitetura basicamente brasileira voltada para as comunidades a que a obra atende. Assim, no projeto de um estádio de futebol em Brasília, foco-me na comunidade de Brasília e em quem a vai utilizar, seja imprensa ou jogadores. A arquitetura, na minha opinião, é a expressão da cultura brasileira.

NB: E como é essa expressão?
RO:
Vamos pensar na arte em geral. No cinema, por exemplo. O filme Central do Brasil tem um tema super regional e o grande mérito do Walter Salles [diretor do filme] foi transformá-lo em uma expressão universal. Eu acho que esse é o papel do grande artista. Foi isso que Tom Jobim fez com a Bossa Nova e que Oscar [Niemeyer] começou a fazer com a arquitetura contemporânea. E a minha preocupação é dar continuidade a isso com muita força. Ou seja, universalizar características particulares a partir das raízes brasileiras.

NB: E nessas raízes, há espaço para tendências japonesas?
RO:
Uns dizem que sim. Mas eu acho que conscientemente não porque eu nunca estudei cultura japonesa, meu japonês é péssimo, e eu não vivo dentro da comunidade. Mas acho que minha contribuição é grande, justamente porque meu trabalho não fica restrito à comunidade. O importante é manter um intercâmbio e não ficar fechado na comunidade.

NB: O senhor se formou em 1960, época efervescente cultural e politicamente, acredita que isso contribuiu para a sua ousadia no campo profissional?
RO:
Sem dúvida. Todo esse período pré-64 [ano do golpe militar] foi muito importante para minha formação, para minha compreensão do País, e para a conscientização do incrível desajuste que é o Brasil. E isso me ajudou muito na construção e consolidação da minha carreira: uma arquitetura mais forte, mais expressiva, mais ousada. E o alimento para essas características foi o momento histórico de minha formação.

NB: Especialistas afirmam que a arquitetura de São Paulo é marcada por certa bipolaridade: projetos modernos de um lado, e, de outro, projetos mais conservadores, com tendências mais clássicas. Suas obras fogem disso?
RO:
Eu procuro fazer minha arquitetura o mais próximo possível da arte. Arquitetura é arte. É por isso que eu diferencio a arquitetura da simples construção. Tento fazer uma arquitetura que seja uma construção capaz de expressar a época em que foi construída, a técnica e os elementos característicos da arquitetura brasileira: surpresa, ousadia e a leitura não complicada. Toda a população, seja quem for, tem que apreciar a obra. Pode não gostar, mas vai apreciar.

NB: Como o senhor lida com as críticas?
RO:
Não ligo mesmo. Toda a vanguarda, pelo fato de romper com alguns paradigmas, é polêmica. E quem tem medo de polêmica nunca vai ser de vanguarda. Vai fazer algo de consenso. E consenso, em termos de arte, não faz avançar. Eu sei que tem gente que não gosta [das minhas obras], mas vou fazendo aquilo que acho interessante. O que me conforta é que tem muita gente do exterior que admira meu trabalho. Procuro fazer uma arquitetura que vai avançando.

NB: Quais são suas preocupações na hora de elaborar um projeto?
RO:
São vários itens que trabalham conjuntamente. Um deles é a estética - que tenha surpresa, inovação, e que seja de fácil compreensão. Ao mesmo tempo, a funcionalidade. De nada adianta um projeto lindo, mas que não funciona. E a terceira é a relação da obra com a cidade. Eu faço uma arquitetura que se coloca na cidade como uma obra da virada do século. Não é cópia de nada e sim a contemporaneidade representada no local onde está. Esses são as três principais preocupações. Depois vêm materiais, cores, técnicas, mas tudo isso é para auxiliar os três pilares.

NB: Quais são seus projetos para o futuro?
RO:
Estou no projeto de um prédio comercial na Avenida Paulista, um estádio de futebol em Brasília, e um projeto de arquitetura social para crianças carentes do litoral norte. É um centro de convivência feito de bambu trançado, com cobertura de tijolo e que mostra que boa arquitetura não requer necessariamente materiais sofisticados. O importante é dar dignidade à obra. Gosto muito dessa obra por ser contemporânea, de qualidade, com materiais simples e com intuito social.

NB: Gosto se discute?
RO:
Gosto se discute. O mau gosto se lamenta.

 

Bate pronto

Família: conjunto de pessoas afins. E não falo de genética necessariamente

Vanguarda: coragem de romper e inovar

Uma boa obra é: aquela que consegue representar a contemporaneidade em cada situação, em cada país

Sonho: sempre fazer obras de vanguarda

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