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Sábado, 14 de dezembro de 2019 - 3h35
 

Compradores compulsivos


Quando a vontade comprar vira doença

(Arquivo NippoBrasil)

Jorge* tinha tudo para ter uma vida bem estruturada, com uma boa família e um ótimo emprego. Aficionado por música desde a adolescência, o economista de 54 anos passou a colecionar CDs desde meados da década de 80, quando os álbuns começaram a surgir no País. Comprava cerca de 15 a 20 por mês e chegava a gastar, em média, cerca de R$ 200 mensais. Somente quando viu que sua vida estava indo por água abaixo é que caiu em si e viu que precisava urgentemente largar o vício. “Muitas vezes, deixava de comprar coisas fundamentais para casa, para meus filhos, só para poder suprir minhas necessidades”, lembra. A compulsividade era tanta que Jorge passou a adquirir inúmeras dívidas. Como se não bastasse, perdeu o emprego, o casamento e precisou vender o carro e outros pertencer para poder pagar a dívida de R$ 7 mil que só foi sanada no ano passado. “Parcialmente recuperado”, como prefere ser considerado, ele está passando por um processo de reeducação financeira. Cancelou os três cartões de crédito que possuía, conseguiu limpar seu nome na lista do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) e do Serasa (Centralização de Serviços Bancários) e evita passar em frente de qualquer loja de CDs.

Casos como o de Jorge podem ser encontrados facilmente a qualquer parte, e o pior: é considerado uma doença. Trata-se da oniomania, um transtorno mental responsável por fazer com que a pessoa sinta um desejo incontrolável de consumir. Por isso, também é conhecida como consumo compulsivo. Esta doença é considerada um vício, assim como o alcoolismo ou até mesmo as drogas. O primeiro caso de oniomania foi encontrado nos Estados Unidos, em 1967, pouco antes de alguns membros dos Alcoólicos Anôminos criarem os Devedores Anônimos, um grupo de auto-ajuda que tem como objetivo, auxiliar o compulsivo no tratamento da doença. No Brasil, o D.A. surgiu em abril de 97, na cidade de São Paulo e atualmente presta serviços em outras localidades do País. De acordo com pesquisas, nos EUA os oniomaníacos representam cerca de 1% da população do país. Aqui no Brasil, não há estatísticas de quantas pessoas sofrem com o consumo compulsivo, mas estima-se que 3% da população são atingidas pela doença.

A principal característica do comprador compulsivo é a obsessão em comprar muito mais do que necessita e do que pode pagar. Chegam a comprar, inclusive, itens repetidos, como calças iguais mas de cores diferentes, além de muitas outras que nem sequer chegam a usar.

Segundo especialistas, inúmeros são os motivos que levam uma pessoa a comprar compulsivamente, como a necessidade, a diversão, o modismo, o status e o apelo mercadológico imposto pela mídia. Mas há também aqueles que consomem pelo simples prazer de comprar, de adquirir alguma coisa, independente da sua utilidade ou significado. “Ao comprar alguma coisa, a pessoa sente um alívio momentâneo para aquela vontade, mas depois acaba se arrependendo, e se sente culpada por este comportamento”, revela a psiquiatra do Ambulatório de Jogos Patológicos e Outros Transtornos do Impulso (AMJO), do Hospital das Clínicas, Daniela Sabbatini. Segundo ela, há uma associação muito grande do problema com a depressão, porém, não se sabe ainda qual desses ocorrem primeiro.

A oniomania pode atingir qualquer pessoa, independente da classe social. Entretanto, a compra compulsiva só irá se dar a partir do momento em que o indivíduo possuir algum dinheiro sobrando em seu orçamento. Ainda não há pesquisas feitas no País sobre a doença, mas de acordo com os especialistas, a oniomania atinge principalmente as mulheres. Não se sabem precisamente o porquê dela ser mais comum entre o sexo feminino, mas acreditam que o motivo está diretamente relacionado com as condições culturais, já que são elas as responsáveis por toda a compra do lar e, por isso, estão mais vulneráveis ao consumo supérfluo. Entre os homens, os itens mais consumidos são os eletrônicos, acessórios para carros, ferramentas e CDs. Já os objetos de consumo mais desejado pelas mulheres são as roupas, sapatos, cosméticos e bijouterias, como é o caso de Deize*, de 47 anos.

Ela é uma das fundadoras do D.A. na cidade de Londrina, no Paraná, e costumava comprar roupas, bolsas e cintos. Mas sua grande compulsão era mesmo por relógios de pulso. Deize não quis revelar quantos relógios possui nem o tamanho da dívida que adquiriu. Porém, disse que na década de 90, precisou vender dois imóveis para poder pagar parte de sua dívida, que só foi sanada depois de sete anos. “Só com o passar do tempo é que fui vendo que tudo o que estava comprando era supérfluo”, afirma.

E não era só ela que era oniomaníaca na família. Como se não bastasse, seu marido também apresentava a doença. Deize lembra que a casa vivia cheia de livros e revistas espalhadas pelos cantos; objetos adquiridos pela compulsividade do marido. Hoje, ela culpa a mídia - em especial, a publicidade - e os pais como sendo os principais responsáveis pela sua doença. “Não tive uma orientação financeira quando criança. Não sabia o que era economizar ou como planejar financeiramente a vida. Se eu tivesse tido essa orientação, talvez nada disso tivesse acontecido”, lamenta.

A compulsividade começa cedo. A pessoa passa a desenvolver a doença entre os 20 e 25 anos; idade em que começa a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro. Entretanto, costuma levar de 8 a 11 anos para ser diagnosticada. Nos EUA, por exemplo, há uma preocupação muito grande com os adolescentes, já que estes têm acesso ao cartão de crédito muito cedo e, muitas vezes, acabam entrando na vida adulta já com dívidas grandes. “A doença varia de indivíduo para indivíduo. Há pessoas que a desenvolvem mais rápido e, para cada uma, ela vai ter um sentido. Além disso, é uma coisa contínua, cuja tendência é só piorar”, afirma Daniela. É o caso de Denise*, 39.

Cantora de uma casa noturna em São Paulo, ela começou a comprar compulsivamente aos 18 anos, quando começou a trabalhar e passar a usar o próprio talão de cheque e usar seu nome para fazer crediários. Na época, costumava comprar roupas, sapatos e bijuterias; preferências das garotas de sua idade. Com o tempo, a compulsividade foi mais além, passando a comprar de tudo, desde roupas a alimentos, sem qualquer tipo de planejamento. Somente a partir do momento em que começou a se endividar é que notou que era oniomaníaca. “Tudo isso era sutil na minha vida e eu não percebia. Até meus pais diziam que sempre fui uma pessoa bem organizada. Não sei como isso foi acontecer comigo”, diz indignada.

A compulsão de Denise causou, não só transtornos à sua vida, mas a de sua família também. Certa vez, a cantora alugou um apartamento, onde foi morar com os filhos, mas não tinha condições sequer de mantê-lo, e antes mesmo que fosse despejada, precisou ir morar na casa dos pais. Nesta época, chegou a perder um carro de R$ 20 mil, tomado pela justiça como parte do pagamento de uma dívida de R$ 25 mil. Há três anos, Denise participa das atividades do D.A., mas revela que algumas vezes tem recaídas. “É inevitável, mas felizmente consigo acordar a tempo”.

Apesar de não existirem pesquisas sobre a doença no País, os especialistas já definiram o perfil do comprador compulsivo. São pessoas com uma dificuldade muito grande de fazer um planejamento financeiro à longo prazo e muito impulsivas - ou seja, que agem antes de pensar. Entretanto, isso não significa que todas as pessoas que sejam impulsivas tendem a desenvolver a doença.

A oniomania é difícil de ser diagnosticada. Para piorar, os compradores compulsivos demoram a admitir seu problema, assim como os dependentes químicos. E, embora haja um tratamento, ainda não existe um remédio que combata o desejo compulsivo. Quem apresentar os sintomas de um oniomaníaco (veja quadro), deve procurar um profissional da área de saúde mental, como um psicólogo ou um psiquiatra, que irá verificar se a doença trata-se ou não de uma oniomania. Além disso, os especialistas aconselham freqüentar grupos de auto-ajuda, como os Devedores Anônimos. “Nem sempre é fácil fazer o diagnóstico, mas é essencial que a pessoa perceba que ela tem um comportamento por compras que causa prejuízos à ela”, garante Sabbatini. A ajuda da família também é fundamental para o tratamento da doença. “Os familiares não podem achar que isso é uma falta de caráter, mas sim, ter consciência de que é um problema e que precisa ser tratado”.

* Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos entrevistados.


Livro retrata o comportamento da mulher compulsiva

O comportamento dos compradores compulsivos é retratado de maneira bem-humorada no livro “Becky Bloom - Delírios de Consumo na 5ª Avenida”. Trata-se de uma continuação do best seller “Delírios de Consumo de Becky Bloom”, da jornalista inglesa Sophie Kinsella, que acaba de ser lançado no País. Becky - que trabalha como consultora financeira num programa de televisão - vai ter sua vida transformada num sonho depois de ser convidada pelo namorado Luke - um empresário bem sucedido - para morar com ele em Nova York. E é lógico que ela vai enlouquecer na Big Apple, afinal, a cidade é considerada a meca do consumo no mundo. Mas enquanto Becky se perde em compras, algo inesperado acontece, atrapalhando seu trabalho, seu relacionamente e, claro, sua linha de crédito. O livro não é uma auto-biografia, mas Sophie Kinsella - que assim como Becky é especialista em economia financeira - consegue descrever, com perfeição, o comportamento consumista encontrado em muitas mulheres que conhecemos. Afinal, não foi à toa que ela escolheu uma mulher para fazer o papel principal de seu romance.

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