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Arquivo NippoBrasil - Edição 164 - 17 a 23 de julho de 2002
 
Bunbuku Chagama: A chaleira encantada

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

Há muitos e muitos anos, no mosteiro budista Morin-ji, na província de Gunma, residiam um pacato monge, que todos o chamavam de Osho-san, e vários discípulos.

Certa ocasião, um sucateiro de nome Jimbei passou pelo mosteiro, acompanhado de sua filhinha, para mostrar alguns artigos que tinha para vender.

- Bom dia, Osho-san, vejo que está cuidando de bonsais floridos!
- Bom dia, as azaléias satsuki estão se abrindo para esse maravilho sol! Qual novidade o traz até aqui, Jimbei?

- Lembra-se que me pediu para conseguir uma boa chaleira de ferro? Pois veja, Osho-san, que linda chaleira caiu em minhas mãos. Não acha ideal para a cerimônia do chá? Gostaria de ter sua opinião sincera a respeito dessa bela peça.

- É realmente uma bela e sólida chaleira. Não precisa gastar saliva de vendedor que a peça fala por si só. Diga o preço e a chaleira fica para o mosteiro.

O monge comprou a chaleira e ficou muito satisfeito com a aquisição:
- Incrível, quanto mais vejo, mais gosto desta chaleira. Ela tem uma aura inexplicável.

O monge não cansava de apreciar o objeto, olhando de frente, de cima e por todos os lados. Resolveu, então, ferver água para preparar um chá. Encheu a chaleira de água e colocou sobre o braseiro (irori) que ficava no meio da sala.

Enquanto esperava a água ferver acabou cochilando, sentado. Passado um tempo, a água começou a querer ferver e de algum lugar soou uma voz estranha:
- Ai, está quente Osho-san! Está quente!

Osho estava dormindo e não ouviu nada, porém os meninos aprendizes que passavam pelo corredor ficaram curiosos ao ouvir aquela voz desconhecida. Resolveram, então, espiar para ver quem estava conversando com o monge e abriram devagarzinho a porta corrediça.

Quando botaram suas cabeças raspadas para dentro da sala levaram um tremendo susto. A chaleira estava com quatro patas, um rabo felpudo e além do mais movia-se desesperadamente para sair de cima das brasas.

- Nossa, uma chaleira assombrada!
- É coisa do demônio. Acorda Osho-san!

Ao despertar assustado com a gritaria de seus discípulos, deparou-se com uma cena inusitada que o deixou boquiaberto. A chaleira tinha cabeça de texugo e saltou fora do braseiro, espalhando brasa por toda a sala. Saiu correndo pelos corredores do mosteiro a gritar:

- Aiii, está quente! Me queimou!
O monge, refazendo-se do susto, também gritava:
- Chaleira encantada é ilusão provocada por um texugo.

Ao ouvir que se tratava de um texugo, os aprendizes de monge correram atrás da chaleira com vassouras para pegá-lo. Nessa época era comum raposas e texugos se transformarem ilusoriamente em gente ou objetos para enganar os homens.

O templo virou uma bagunça, era correria pra lá e pra cá atrás do texugo. Até que certa hora o bicho desapareceu.

- Perdemos de vista, acho que fugiu para a mata. Vamos dormir, ele nos deu uma canseira danada.
Na manhã seguinte, quando o monge acordou, percebeu que a chaleira, tal como comprou, estava na estante onde ele deixara.

- Será que foi um sonho? Ou essa chaleira é um texugo encantado?
Porém, olhando de vários ângulos parecia uma chaleira normal.

Nesse momento o sucateiro Jimbei chegou ao mosteiro apavorado.
- Desculpe-me por te enganar, Osho-san. A chaleira que vendi ontem para o senhor não é uma chaleira e, sim, um texugo encantado.

- Oh, então não foi um sonho. Quando a coloquei sobre a brasa o bicho saiu esperneando feito um doido.

- Pobre texugo, deve estar todo queimado. Minha culpa, fui duplamente irresponsável.
- Calma Jimbei, conte-me o que aconteceu.

Continua...

 
Adaptação livre de Claudio Seto

 

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