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Arquivo NippoBrasil - Edição 094 - 8 a 14 de março de 2001
 
Haruyama e Akiyama

(Por Claudio Seto)

Prólogo
Um dia Fujiwara no Kinto, poeta e grande conselheiro de Estado, que compilou no ano 1001 sob decreto imperial, a antologia poética Shui Wakashu com 1.300 poemas da literatura clássica japonesa, debateu com o Ministro Uji a respeito de qual seria a mais bela flor da primavera e a mais bela de outono.

Dizia o ministro, “ Sakurá, a flor de cerejeira é a melhor entre as flores da primavera e Kiku, o crisântemo entre as do outono”. Kinto observou que: “Como pode a flor de cerejeira ser a melhor? Você deve ter se esquecido de Ume, a flor da ameixeira”.

O debate sobre qual das duas flores é superior se alongou e ganhou os corredores da corte imperial fazendo surgir duas facções de torcedores; uma à favor da flor de cerejeira e outra pela flor de ameixeira.

Mais tarde Kinto, percebendo que o ministro fazia defesa radical da cerejeira e para não ofendê-lo comentou: “Bem então, a cerejeira é a mais bonita das duas, mas quando você vê, pelo menos uma vez na vida, a flor vermelha da ameixeira no amanhecer da primavera, você jamais esquecerá daquela bela imagem”. Esse foi o gentil desfecho dado pelo poeta ao debate, porém na literatura japonesa a discussão sobre a natureza é um assunto sem fim. Desde a antigüidade e ainda hoje, os japoneses discutem qual a flor mais bonita, qual a estação do ano favorita.

Nos encontros poéticos realizados com freqüência durante o período Heian (794-1192), tornou-se hábito na corte, debater em versos a superioridade da primavera ou do outono. Esse hábito num determinado sentido, simboliza a profunda preocupação dos japoneses com o meio-ambiente. O poema da princesa Nukada, entre outros, em Manyôshu (ano 780) fala do assunto:

Mas quando nas encostas do outono
Vemos a folhagem,
Elogiamos as folhas amareladas,
Tomando-as em nossas mãos,
Suspiramos contemplando as verdes,
deixando-as nos galhos
E este é meu único pesar...
Para mim, as colinas de outono!

No Shuishu, um poeta anônimo assim se expressa a respeito:

Na primavera
pensamos apenas no florescer
das cerejeiras.
Já o outono é mais repleto
da melancolia das coisas.

Em Makura no Soshi (Livro de Travesseiro, escrita no ano 1000) a escritora Sei Shonagon inicia uma passagem onde discute as diferentes paisagens e interesses despertados pelas várias estações. Já Murasaki Shikibu (978-1016), na obra máxima da literatura japonesa, Guenji Momogatari (A História de Guenji), no capítulo “Gloria Matinal” fala da paisagem, que foi para a literatura da época, um novo tipo de beleza:
paisagem clara e serena da noite de inverno:

“As pessoas atribuem grande importância às flores de primavera e às folhas de outono, mas para mim nada há que se compare a uma noite como esta, onde a lua clara brilha sobre a neve, ela é a mais bela... e não há nela qualquer vestígio de cor. Não posso descrever o efeito que tem sobre mim, de alguma forma desvairado e sobrenatural. Não compreendo as pessoas que consideram uma noite de inverno ameaçadora.”

Os japoneses antigamente costumavam dizer “olhai as cerejeiras” ou “olhai os aceres”, palavras que traziam consigo um sentido de apreciação refinada e sensível das belezas da natureza. As flores da cerejeiras (sakurá) na primavera, e as folhas avermelhadas do ácer (momiji) no outono, são referências tão enraizadas na vida dos nipônicos que ninguém consegue ignorar a festa que a natureza oferece anualmente. Há quem diga que a tradição de debater qual é a melhor, primavera ou outono, é influência da história mitológica de dois irmãos: Haruyama no Kasumi no Mikoto (Príncipe da Névoa da Montanha da Primavera) e Akiyama no Shitabi no Mikoto (Príncipe da Montanha Rubra de Outono), descritas no capítulo 7 de Kojiki. Esses deuses personificam, respectivamente, as brumas de primavera e as folhas de outono. E suas brigas procuram justificar muitos fenômenos geográficos no norte do Japão.

Continua...

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