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Arquivo NippoBrasil - Edição 077 - 2 a 8 de novembro de 2000
 
Pré-história do Japão - 8
Ukemochi no Mikoto

(Por Claudio Seto)

Em Ashi Hara no Mizuho no Kuni (País dos Juncos e dos Campos das Espigas de Arroz- hoje Japão) viviam dois príncipes irmãos, filhos de Hassuseiri no Mikoto (Divindade Espiga Madura), netos de Ninigui no Mikoto, e tataranetos de Amaterassu Omikami, a Augusta Deusa Sol. O mais velho se chamava Hohoderi no Mikoto e o mais novo Hoori no Mikoto.

Hohodemi por ser um excelente caçador era conhecido também como Yama no Satihiko no Mikoto (Divino Jovem da Montanha) e Hoori por ser um fino pescador era conhecido por Umi no Satihiko no Mikoto (Divino Jovem do Mar). Um dia o mais velho propôs ao mais novo:

- Que tal fazermos uma troca? Durante um dia inteiro você fica nas montanhas caçando com meu arco e flecha e eu fico no mar pescando com sua linha e anzol.

O outro aceitou a proposta e ficou combinado que já no dia seguinte fariam a troca. Na manhã seguinte Hohodemi, o pescador, subiu a montanha com o arco e flecha do irmão, enquanto Hoori, o caçador, foi em direção ao mar. Lá chegando, sentou-se sobre uma pedra e passou o dia tentando pescar algum peixe mas não foi bem sucedido. Entediado de ficar o dia inteiro parado, mal o sol começou a cair, ele voltou para a aldeia e devolveu a vara para o irmão.

Igualmente sem sucesso, o pescador voltou da caça e mau humorado por não ter conseguido usar o arco e a flecha com habilidade. Ao receber sua vara de volta percebeu que estava sem anzol.

- Que é isso? Você perdeu meu anzol. Como vou pescar desse jeito? Só devolvo seu arco e as flechas quando trouxer o anzol de volta. Trate de voltar onde estava pescando e procure-o.

- Algum peixe deve ter levado, como posso encontrar um anzol no imenso mar?
- O problema é seu, eu quero meu anzol de volta.

Hoori voltou ao local onde passou o dia pescando e vasculhou por toda área para ver se não estava enroscado em algum ramo de capim, mas nada encontrou. Voltando à aldeia, com o coração partido entregou sua espada para que o ferreiro derretesse e fizesse milhares de anzóis. Alguns dias depois, levou os anzóis e deu para o irmão.

- Esses anzóis não são meus. Eu quero apenas o meu anzol, não aceito outros. Trate de procurar no fundo do mar, pois é lá que deve estar.

O PALÁCIO DO MAR
Desolado, Hoori caminhava pela praia sem saber o que fazer. Olhou para a imensidão do mar e gritou desesperado:
- Por favor me ajude!

- Disse alguma coisa – perguntou uma voz atrás de Hoori.
Quando o jovem se virou para trás deu de cara com um ancião de longa barba e cabelos brancos. Hoori contou o que o afligia e o ancião se dispôs a ajudá-lo.

Os dois cortaram bambu, amarraram as varas lado a lado, uma nas outras construíram uma jangada.

- Suba e navegue até o alto mar. Lá onde as ondas se separam existe um caminho. Siga por ela até encontrar um palácio. É a morada de Shiyozuchi no Kami, o Deus do Mar. Ao lado do portão principal existe um poço e uma árvore. Você deve subir na árvore e ficar esperando que venha atendê-lo.

A jangada de bambu foi arrastada para o alto mar e Hoori corajosamente deixou-se levar. Horas depois o mar se abriu em duas partes e um caminho de areia descortinou à sua frente. Seguindo por ela chegou no portão de um belo palácio. Como descrevera o velhinho, havia um poço e uma árvore ao lado do portão. O jovem subiu na árvore e ficou esperando que alguém abrisse o portão.

Pouco depois, uma bela ninfa apareceu com um vasilhame nas mãos. Quando olhou para dentro do poço viu a imagem de Hoori refletido no espelho d’água e levou um grande susto. Correndo foi avisar Toyotama Hime (Princesa Alma Luxuriante), que havia um homem no fundo do poço.

A princesa e seu pai Shiyozuchi no Kami e as ninfas correram ao portão e viram Hoori em cima da árvore. Quando o Deus do Mar viu o moço logo o reconheceu:

- Ora, é o neto de Ninigui no Mikoto, a divindade que veio de Takama no Hara (Alta Planície Celeste).

Pelo fato de ser descendente de Amaterassu Omikami, a Augusta Deusa Sol, o jovem príncipe foi recebido com grande pompa. Muitas festas com maravilhosos banquetes acompanhados de músicas e danças aconteciam sem parar. Hoori não percebeu o tempo passar pois vivia numa atmosfera de sonho e encantamento. Ele se apaixonou pela princesa Toyotama e se casaram. Hoori era intensamente feliz e assim num piscar de olhos três anos se passaram.

Um dia, em meio a uma conversa, Hoori lembrou da razão que o fizera vir até o Palácio do Mar (também conhecido como Palácio do Dragão).
- Esqueci do anzol, meu irmão deve estar desesperado.

Percebendo que seu marido ficou muito preocupado, a princesa Toyotama, se dispôs à ajudá-lo. Hoori então contou toda história dizendo que veio com a finalidade de procurar o anzol do irmão.

Quando a princesa relatou à seu pai, o Deus do Mar convocou todos os peixes a comparecerem em sua presença. Todas as espécies de peixes se fizeram presente em torno do palácio e Shiyozuchi no Kami perguntou:
- Sabe de alguém que se engasgou com um anzol há 3 anos nesta região?
- Sim, responderam os peixes.

- Foi o guloso Pargo. Faz tempo que ele vive se queixando de dor na garganta.
Em seguida o pargo se apresentou e o Deus do Mar examinou sua garganta. Como disseram o anzol esta vá ali espetado. Shiyozuchi retirou cuidadosamente e entregou ao genro. Hoori agradeceu a hospitalidade ao Deus do Mar e despediu-se dele.

- Foi um imenso prazer receber a sua visita. Gostaria que você não fosse, mas não posso retê-lo por mais tempo, pois sei que no império de seu pai está acontecendo coisas muito graves e sua presença se faz necessária. Só quero pedir que cuide bem da minha filha.
Em seguida estendendo uma pérola gigante disse:

- Você poderá passar por momentos difíceis, por isso aceite este tama (bola de cristal) como talismã. Ela se chama Jóia da Maré Alta quando você aperta com a mão direita. As águas do mar sobem com toda sua fúria capaz de arrastar consigo todos os seus inimigos. E quando você apertar este tama com a mão esquerda, passa a ser denominada “Jóia da Maré Baixa”, e as águas voltarão tranqüilamente ao seu leito sem deixar traços algum de sua passagem.

Continua...
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