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Opinião - Edição 528 - Jornal NippoBrasil

Dólar, novamente um problema

Teruo Monobe*

Manchetes em jornais paulistas: “Real forte é o ponto fraco da economia brasileira” (lê-se dólar baixo), “Dólar fraco”, “É o câmbio, Sr. Presidente!”, “O paradoxo do dólar”. Tudo isso saiu no mesmo dia. No outro dia, outro artigo sobre o mesmo assunto: “Beleléu”. Depois, mais artigos: “Dólar furado” (foi esse o título de um artigo nosso há algum tempo), “Uma tese com substâncias” (sobre o câmbio) e “Fatalismo cambial?”. Até sair este artigo, mais terá sido dito sobre o dólar.

Vê-se, pelas manchetes, quanto o assunto preocupa empresários, exportadores e demais agentes econômicos. Isto porque o dólar ainda é a moeda de troca mais transacionada no mundo, mais por falta de um substituto do que por mérito próprio. Se, no passado, o exportador brasileiro fazia as operações de derivativos com o dólar, agora, ninguém quer se arriscar depois das perdas; ficou difícil para os exportadores tentar compensar a perda com os dólares. E os dólares continuam entrando.

O dólar fraco também preocupa as multinacionais que tinham planos de expansão de suas unidades no Brasil. As matrizes dessas empresas haviam decidido expandir-se porque o Brasil sofreu menos com a crise e, com isso, tinha perspectivas de sair dela mais forte e com mais rapidez do que as outras economias. Além disso, o potencial do mercado interno brasileiro não é nada desprezível. Também muitas multinacionais queriam fazer do Brasil a plataforma de exportação de seus produtos.

A desvalorização do dólar não é um fenômeno que ocorre só no Brasil e, por isso, o Banco Central hesita em tomar medidas mais efetivas. É um fenômeno global. Só que, durante a crise, o Brasil foi o país em que o dólar mais se valorizou e, agora, ocorre o contrário. Alguns economistas sugerem a redução ainda maior dos juros como forma de desestimular os investidores externos de fazer operações de arbitragem de juros (tirando proveito da diferença entre as taxas internas e externas de juros). Medida conservadora é continuar comprando dólares para aumentar as reservas cambiais.

Outros analistas falam que existe mais uma causa fundamental da valorização do real: a existência da doença da vaca holandesa no Brasil (aumento de receita decorrente da exportação de recursos naturais, provocando a desindustrialização do País devido à valorização cambial, tornando o setor industrial menos competitivo aos produtos externos). Assim, a baixa do dólar pode provocar uma crise no balanço de pagamentos no médio prazo. Para esses analistas, melhor seria o abandono do sistema de câmbio flutuante, uma decisão radical que representaria um retrocesso.

Medidas mais radicais têm sido propostas, como a adoção do controle de capital especulativo. A ideia seria a exigência de um período mínimo de permanência para investimentos em Bolsa ou de renda fixa. Ninguém pode determinar se uma medida como essa poderia ser bem vista na comunidade internacional num momento desses. Já pega mal na própria definição do que é capital especulativo; vai gerar muita polêmica. Talvez fosse mais fácil baixar os juros, ainda em patamar considerado alto.

Os empresários alertam que a baixa do dólar vem em um momento difícil para o Brasil: os países da zona do euro se recuperam e o País não pode tirar proveito do câmbio para exportar. Por isso, os empresários já começam a falar em desoneração da cadeia exportadora, mesmo que temporária. Uma dessas medidas, a eliminação de impostos diretos e indiretos e a redução de encargos sociais sobre folhas salariais, pode ser independente da reforma tributária, hoje paralisada.

Analistas e empresários alertam que a consequência inevitável da apreciação do real é a perda de mercados difíceis de reconquistar e o aumento de importações de bens de capital e de consumo. As exportações ajudam a recuperação econômica, por isso o mundo agradece o Brasil enquanto a nossa economia se desarranja. Em termos macroeconômicos, a perda do valor do dólar não é menos nocivo. O Brasil mal sai da crise e já volta o velho problema do dólar. É a verdinha gerando muita discussão.




*É Mestre em Administração Internacional e doutor pela USP
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