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Toguênkyo - Parte 1
 

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

 

Antigamente no Japão havia muitos vendedores ambulantes que levavam as mais distantes aldeias, vários produtos que só era possível encontrar apenas na capital. Certa ocasião um desses vendedores, cujas mercadorias que vendia eram chás e produtos de beleza femininos, andava nos atalhos de uma montanha, e ficou perdido no meio da mata. Havia então um enorme bambuzal que parecia não ter fim. Enquanto se esforçava para atravessar o bambuzal, o vendedor ia lamentando a sua falta de sorte.

-Além de não conseguir vender nada, ainda fui me perder...
Depois de muito esforço e ganhar alguns arranhões nos braços, o vendedor finalmente conseguiu chegar a uma enorme clareira cor de rosa. Havia ali grande quantidade de cerejeiras em flor que espalhava no local uma deliciosa flagrância.

O vendedor de chás respirou fundo e se deliciou com o agradável perfume que fazia ele esquecer o cansaço da longa e árdua caminhada. Nisso alguns rouxinóis começaram a cantar nos galhos das cerejeiras.

-“Nossa, isso parece o Toguenkyô, o Paraíso Terrestre!” -Disse o vendedor de chás se maravilhando em vários sentidos: com os ouvidos acompanhava o harmônico canto dos rouxinol; com o olfato absorvia o delicioso perfume das flores; a visão se extasiava com o céu cor de rosa coberto de flores da cerejeira e o tato experimentava a leveza das pétalas que desprendiam dos galhos, e choviam como flocos de neve, pousando levemente, na sua cabeça, ombro e braços. E o rapaz se deixou levar pela sensação maravilhosa que estava experimentando, deixou sua caixa de chás no chão e começou a dançar ao som dos rouxinóis.

Abriu os braços em gesto generoso e dançou, dançou, dançou, com gostoso sorriso nos lábios até cair de costas no grosso tapete de pétalas. Sentia-se feliz como nunca. Então suspirou o vendedor:

- “Ah! só falta a companhia de uma linda garota para completar este cenário perfeito!” Daí, como num passe de mágica, de trás dos troncos das cerejeiras surgiram quatro lindas garotas que cercaram o moço deitado.
- “Devo estar sonhando” - raciocinou o vendedor.

Sem nada dizer, as garotas o levantaram pelos braços e conduziram para um lindo palacete. O vendedor notou que havia uma grande curiosidade por parte das moças, em conhecer os produtos que ele trouxera e começou a mostrar. Havia além dos vários tipos de folhas trituradas para chás, cosméticos, pentes, enfeites para penteados e vários produtos femininos.

As moças ficaram encantadas com as mercadorias e manifestaram desejo de comprar vários produtos. Nisso adentrou a sala uma bonita senhora que se apresentou como Shizen, dona do palacete que tinha seu nome e era a mãe das quatro lindas garotas. Ato seguinte a senhora Shizen comprou todas as mercadorias.

Sem dúvida nenhuma a sorte tinha mudado para o vendedor. Produtos que não havia conseguido vender em uma semana de exaustiva caminhada, foram vendidos em alguns minutos como num passe de mágica. Quando agradeceu a todas pelas compras e se preparava para partir, a senhora lhe disse:

- O dia está acabando e o caminho de volta é longo. Na escuridão da mata poderá se perder. Por favor, aceite nossa hospedagem.

O vendedor não pensou duas vezes. Aceitou imediatamente a boa oferta e foi conduzido a um quarto do palacete. Haviam acontecido muitas coisas para um só dia. Bastou deitar para sentir uma canseira gostosa e logo pegou no sono.

Na manhã seguinte, durante a refeição matinal, dona Shizen fez uma surpreendente proposta ao vendedor.

- O senhor já deve ter percebido que neste palacete só vivem mulheres. Eu e minhas quatro filhas: Haruko, Natsuko, Akiko e Fuyuko. Gostaria que ficasse a vontade pelo tempo que quiser. Mais que isso, gostaria que casasse com uma das minhas filhas.

O jovem vendedor que sempre foi uma pessoa pobre e solitária não podia deixar passar uma oportunidade maravilhosa como aquela. Um rico lar e uma bela esposa. Assim concordou em casar com a filha mais velha, Haruko, cujo nome significa “Filha Primavera”. Foi uma cerimônia simples mas maravilhosa. Sob as vistas da bela e imponente mãe Shizen, as irmãs de Haruko dançaram para o casal, enquanto a noiva servia saquê para o noivo.

Sua vida mudou completamente. Já não precisava andar milhas e milhas oferecendo chás e cosméticos para pobres lavradores, para ganhar alguns trocados. Naquele maravilhoso palacete nem dinheiro precisava. Passava o dia ouvindo músicas de shamisem e koto tocadas pelas garotas, jogando cartas e criando poesias. Era feliz. Vivia um sonho.

Bem dizem que quando se é feliz, o tempo passa em incrível velocidade. Um ano se passou num piscar de olhos. O cheiro do ar denunciava a chegada da primavera. Ao acordar naquela manhã e dirigir-se ao refeitório do palacete, encontrou a mãe e suas quatro filhas vestidas em lindos trajes de gala.

- “Vamos ao Hanami (ritual de apreciação das flores de cerejeiras), por favor tome conta do palacete para nós.”, disse a senhora ao genro e antes de sair complementou: “Se ficar entediado de ficar sozinho, pode abrir e espiar um pouco, três dos quatro portões que existem salão principal, para se distrair. Porém o quarto portão você não deve abrir em hipótese alguma. Não está autorizado. Promete que não vai abrir?”.

- “De jeito nenhum.”
- “Ótimo, então até à tarde.”

Continua...

 
Adaptação livre de Claudio Seto

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