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Espelho de Matsuyama - Parte 1

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

 

No imaginário japonês o espelho tem forte teor místico e faz parte da mitologia e do folclore deste milenar país insular. O espelho que na pré-história japonesa a Augusta Deusa Sol, Amaterassu Omikami, contemplou seu rosto ao deixar seu refúgio na gruta celeste, foi guardado no primeiro santuário construído no Japão, em Ise. Ainda hoje ele faz parte dos “Três Tesouros Sagrados do Japão”, juntamente com a espada e a jóia Magatama.

No Japão existem dois provérbios bastante conhecidos. O primeiro diz que “quando o espelho é escuro a alma do dono está impura”. A outra diz: “A espada é a alma do guerreiro, e o espelho da mulher”. e de acordo com Kojiki, o mais antigo livro do Japão, deus Izanagui deu para seus filhos um disco de metal prateado, altamente polido e lhes disse que se ajoelhassem humildemente diante do objeto a cada manhã ao despertar e cada noite antes de dormir. Para que com esse gesto de humildade pudessem subjugar as paixões e pensamentos negativos e maldosos, de tal forma que o espelho de bronze pudesse refletir, somente a pureza do espírito de cada um.

O espelho é assim parte da tradição antiga japonesa. Existe uma lenda famosa conhecida como “O Espelho de Matsuyama”. Trata-se de uma história de amor materno. Acredita-se que Matsuyama (montanha de pinheiros) apesar de ser sobrenome de família, nesse caso refere se a região onde ocorreu a história. Vamos a lenda:

Há muitos e muitos anos atrás, quando de viagem à Kyoto, antiga capital do Japão, um homem trouxe de presente para sua esposa, um espelho de bronze, com decorações em baixo relevo na parte de trás, tendo como motivos símbolos de longa vida e fidelidade no casamento: Um pinheiro (matsu) e um par de garça tsuru. Acredita-se que a garça tsuru assim como o pato mandarim, tem apenas um (a) companheiro (a) na vida. Quando um morre o outro permanece sozinho o resto de sua vida.

Nessa época espelho era feito de bronze polido e tratava-se de um objeto raro que somente as pessoas de muita posse podiam adquirir. A esposa que nunca tinha se visto em um espelho, ficou envergonha e ao mesmo tempo feliz, ao ver sua bela imagem ali refletida.

O casal tinha uma filha pequena que com o passar do tempo foi crescendo e ficando cada vez mais parecida com a mãe. Quando ela transformou-se numa bela garota, a mãe foi vitimada por uma doença atroz. Então a mocinha cuidava dos afazeres da casa e dava comida para a mãe que estava enfraquecida no leito. A bela garota fez de tudo para que a mãe melhorasse, porém dia a dia ela foi piorando.

Certo dia percebendo que estava morrendo, chamou a filha para perto do leito e disse:

-Quando eu partir, quero que cuide bem de seu pai e sejam felizes.
-Jamais poderemos ser feliz sem você mamãe. Disse a menina a chorar.

-Por favor não chore. Estarei sempre perto de você, quando você quiser encontrar comigo olhe para dentro desta caixa que dou para você. Essa caixa foi um presente que seu pai trouxe da capital, quando você ainda era um bebe. Dizendo isso a mãe passou a caixa que continha o espelho de bronze para a filha. No dia seguinte ela veio a falecer.

A menina chorou muito, pois não era caixa de presente que ela queria, mas sim que sua mãe melhorasse e continuasse vivendo com ela. O pai e a filha já não sabiam o que fazer, pouco conversavam e a casa caiu numa profunda tristeza.

Continua...

 
Adaptação livre de Claudio Seto

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