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Arquivo NippoBrasil - Edição 196 - 5 a 11 de março de 2003
 
A origem da cigarra Chibahime

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

 

O Japão por ser uma civilização milenar, para tudo existe uma lenda que tenta justificar costumes, nomes, formatos, cores, tamanhos, de animais, árvores, cereais, frutas, verduras, objetos e acidentes geográficos. Muito destas lendas de origem das coisas é atribuído aos milagres do monge Kukai, mais conhecido atualmente como Kobo Daishi, fundador da seita Shingon, ou budismo esotérico.

Conta a história de tradição oral do povo, que durante sua peregrinação pelo País, que durou cerca de 10 anos, o monge Kukai passava pelo feudo de Hitachi (hoje província de Ibaragui) durante um verão muito quente. Na época, os monges andarilhos, tanto pelas longas e demoradas caminhadas, tinham uma única peça de roupa aos trapos e mendigavam para exercer o voto de humildade. Em uma aldeia rural, vendo uma casa junto aos arrozais, pediu pousada por uma noite, para descansar seus pés que estavam doloridos.

O lavrador que o atendeu, vendo a condição miserável de sua vestimenta, recusou terminantemente a lhe conceder hospedagem, com duras palavras:

- Nesta casa temos por norma não dar comida ou pousada para monges vagabundos. Caia fora da minha propriedade.

Monge Kukai com sua calma habitual baixou a cabeça, pediu desculpas pelo incômodo e seguiu seu caminho.

O dono da casa estranhou o comportamento do andarilho, pois geralmente os monges mendigos, reagiam resmungando ou rogando pragas, diante da sua recusa em dar auxílio aos pedintes que por lá passavam. Então ficou pensando com seus botões:

- Que monge-mendigo diferente... Além de não ficar zangado com minha recusa, ainda desculpou-se pelo incômodo fazendo educada reverência e se foi calmamente...

Naquele momento o lavrador lembrou que quando esteve na cidade, ouviu dizer que o famoso monge Kukai estava peregrinando pela região e ajudando muitas pessoas com seus ensinamentos. Então concluiu que aquele mendigo era Kukai e que seria uma honra ter como hóspede alguém a quem o imperador Saga confiou a direção do templo Tôji, em Kyotô, considerado o santuário principal na proteção à nação.

O homem saiu correndo pela estrada atrás de Kukai, mas não conseguiu avista-lo. Correu por vários trechos até o sopé da montanha, onde a estrada se dividia em várias trilhas, mas nada. Então subiu numa árvore alta e começou a gritar repetidamente o nome de Kukai.

O monge tinha recebido hospedagem na casa vizinha e naquele momento estava tomando um gostoso banho quente de ofurô (banho por emersão). Como o lavrador estava chamando por ele lá longe, perto da montanha, Kukai não ouviu os gritos. Dizem que o homem em cima da árvore ficou gritando, gritando, gritando, e como por encanto se transformou em uma cigarra.

Essa história teria ocorrido nos anos 800, mas ainda hoje, quando chega o dia 23 de julho, milhares de cigarras chamadas Chibahime, cantam o dia inteiro na região, como se estivessem chamando Kukai.

A origem da batata pedra

Certa ocasião, o monge Kukai peregrinava pela região nordeste do Japão e sentindo fome, resolveu pedir uma tigela de arroz numa casa à beira da estrada. Vendo uma senhora na cozinha, aproximou-se da porta e sentiu o cheiro gostoso de batata cozida, que vinha de uma grande panela que estava no fogo.

- Sei que é um atrevimento, mas gostaria pedir uma batata que a senhora está cozinhando. O cheiro gostoso faz minha barriga roncar.

A dona de casa não gostou nem um pouco da presença do maltrapilho monge pedinte e fazendo cara feia respondeu:

- Apesar de parece uma batata comum, ter o cheiro de uma batata comum, esta não é uma batata comum. Trata-se de batata-pedra, impossível comer de tão dura. A não ser que o senhor tenha dom especial de comer pedra, nesse caso na estrada está cheia, sirva-se à vontade.

Diante a irônica negativa, Kukai continuou sua caminhada. A dona de casa, vendo o monge desaparecer na curva da estrada, correu para a panela, tirou-a do fogo, para comer a batata que já estaria cozida.

Quando pôs uma batata na boca, quebrou os dentes da frente, pois ela estava tão dura quanto uma pedra. Mesmo assim experimentou as outras e constatou que todas estavam duras e impossíveis de comer. Conta o folclore que desde então, as batatas que nascem espontaneamente na região, são chamadas batata-pedra (ishi-imô) porque é tão dura que ninguém consegue comê-las.

 
Adaptação livre de Claudio Seto
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