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Arquivo NippoBrasil - Edição 182 - 20 a 26 de novembro de 2002
 
Zenchi-bonsai – O amor ao próximo

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

No antigo Japão, na região de Yamato, havia uma pequena aldeia chamada Zenchi-murá, cercada de florestas e montanhas por todos os lados. Por ser muito difícil chegar lá, a aldeia ficou completamente isolada do resto do país durante séculos. Esse fato fez com que o dinheiro perdesse totalmente seu valor até que finalmente deixou de existir. Tudo que as pessoas precisavam eram trocados. Tudo que era cultivado ou produzido era trocado por outros produtos ou por serviços.

Como não existia dinheiro, ouro e pedras preciosas perderam também seu valor. A coisa mais valiosa do local era o amor ao próximo. Assim, a aldeia vivia na mais perfeita harmonia porque todos faziam questão de demonstrar esse amor. Os habitantes do local sabiam cultivar bonsai, pois era uma arte passada de pai para filho durante várias gerações e a Zenchikyô (Seita Zenchi) o empregava para meditação terapêutica, unindo a aura da planta com a aura humana.

Não se sabe a partir de quando, porém, curiosamente - pelo fato de o bonsai ser uma árvore tratada com carinho e é símbolo de longevidade - passou a simbolizar o amor ao próximo. Era comum, então, as pessoas presentearem outras com um vaso de Zenchi-bonsai sem esperar nada em troca.

As pessoas davam seu melhor bonsai (amor ao próximo), pois sabiam que receberiam outros a qualquer momento ou dia. Assim os Zenchi-bonsais da aldeia circulavam de casa em casa, sendo tratados com todo carinho por onde passavam.

Um dia, um jovem da aldeia se perdeu na floresta e depois de muito caminhar, foi parar numa grande cidade, além das montanhas. Ao passar diante de uma mansão, viu belos bonsais no jardim e ficou impressionado. Pediu ao jardineiro que lhe desse uns vasos, pois queria presentear as pessoas da sua aldeia.

O jardineiro explicou que isso era impossível pois aqueles bonsais valiam uma fortuna. Ao ouvir a história do moço sobre os bonsais de sua aldeia, o jardineiro aconselhou a não dá-los e apenas receber dos outros, assim ele se tornaria a pessoa mais rica da aldeia, pois poderia vendê-los quando quisesse nas grandes cidades

Iludido pelas palavras do jardineiro, o rapaz, que era uma das pessoas mais populares e queridas da aldeia, passou a juntar bonsais (amor ao próximo) e em pouquíssimo tempo o quintal de sua casa estava repleto de bonsais, tornando-se até difícil de circular nele.

Então, quando a aldeia já estava praticamente sem Zenchi-bonsais (amor ao próximo), as pessoas começaram a guardar os poucos que tinham e toda a harmonia da cidade desapareceu. Sem Zenchi-bonsais (amor ao próximo) surgiram a ganância, a desconfiança, o primeiro roubo, o ódio, a discórdia, e as pessoas brigavam pela primeira vez e passaram a ignorar-se pelas ruas.

Como era o mais querido da aldeia, o rapaz foi o primeiro a sentir tristeza e solidão. Então atravessou a montanha e foi procurar o jardineiro para perguntar se aquilo fazia parte da riqueza que ele tinha acumulado.

-Ora meu bom jovem, esqueça a tristeza e a solidão, traga seus bonsais para cá e venda aos nobres da corte, que você vai ganhar uma montanha de dinheiro.

-Com esse todo esse dinheiro poderei comprar a amizade, felicidade e harmonia?
-Claro que não. O dinheiro só compra coisas materiais, respondeu o jardineiro.

Diante da resposta, o moço da aldeia tomou uma decisão. Colocou os Zenchi-bonsais (amor ao próximo) num carrinho de mão e caminhou por toda aldeia distribuindo aleatoriamente os bonsais. A todos que dava, ele apenas dizia:
- Obrigado por receber o meu Zenchi-bonsai (amor ao próximo)

Assim, sem medo de acabar com seus bonsais, ele distribuiu até o último amor ao próximo, sem receber um só de volta. Sem que tivesse tempo de sentir solidão e tristeza novamente, alguém caminhou até ele e lhe deu um Zenchi-bonsai (amor ao próximo).

Um outro fez o mesmo... Mais outro... e outro... até que definitivamente a aldeia voltou a ser feliz novamente.

 
Adaptação livre de Claudio Seto

 

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