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Arquivo NippoBrasil - Edição 166 - 31 de julho 6 de agosto de 2002
 
Bunbuku Chagama: A chaleira encantada - Parte 2

Adaptação livre de Claudio Seto
(Texto e desenhos: Claudio Seto)

- Dias atrás, quando estive aqui e o senhor me pediu para conseguir uma chaleira, voltei pensando em como seria difícil conseguir uma de Segunda mão, já que as chaleiras de ferro duram a vida inteira e poucas pessoas se desfazem delas. Quando cheguei na aldeia, deparei com um bando de meninos que ameaçavam que iriam judiar de uma menina assustada.

-Meninos, parem com isso- gritei. Os meninos então foram embora. Mas a menina também tinha desaparecido. Enquanto procurava por ela, encontrei uma chaleira exatamente como eu tinha imaginado em conseguir para o senhor.
-Onde entra o texugo encantado nessa história, Jimbei ?

-Sabe Osho-san, levei a chaleira para casa e resolvi testar sua resistência antes de trazer para vender ao senhor. Assim que coloquei no fogo, com grande surpresa descobri que a chaleira na verdade era um texugo encantado.
-É uma grande coincidência, pois você procurava uma chaleira e encontrou uma encantada.

-Não foi bem assim Osho-san. A menina que salvei dos meninos malvados, era na verdade o texugo encantado. Ele estava transformado em menina para pregar peça na escola e foi descoberto pelos meninos. Perseguido, cruzou meu caminho. Deve ter lido meu pensamento e transformou-se numa chaleira para se esconder dos meninos e para que eu o levasse para casa para protegê-lo.

-Mas sabendo que era um texugo encantado, por que vendeu para mim?
-Peço mil perdões Osho-san, o senhor é um santo homem, e eu não consegui dormir depois que lhe vendi a chaleira ontem. Por isso vim correndo para me desculpar com o senhor.

-Está perdoado, devolva-me o dinheiro e leve sua chaleira encantada de volta.
-Aí que está a razão da minha mentira. Já gastei o dinheiro.
-Mas como Jimbei, você é muito mais irresponsável do que imaginei.

-Na verdade Osho-san, a idéia de lhe vender a chaleira nem foi minha. Foi do próprio texugo que queria me beneficiar de alguma forma, por ter salvo dos meninos malvado. E sabendo que eu tinha uma conta para pagar ontem e se não o fizesse correria risco de vida, o texugo sugeriu que lhe vendesse a chaleira. Assim ele ficaria morando nesse pacífico mosteiro e estaria bem para todos. Concordei pensando que o senhor apenas iria deixar a chaleira apenas como objeto de apreciação. Assim durante o dia, o texugo ficaria na estante e a noite, quando todos dormissem, poderia passear a vontade.

-Se eu não tivesse botado a chaleira no fogo, a farsa duraria por muito tempo.
-Não Osho-san, eu fiquei muito arrependido de tê-lo enganado. Agora não tenho o dinheiro para lhe devolver e tenho um texugo todo chamuscado. Não sei o que fazer para merecer o seu perdão.

-Jimbei, sei que você é um bom homem, quando tiver dinheiro me traga ou consiga uma chaleira de verdade para mim.
Assim Jimbei, o sucateiro, voltou para sua casa levando a chaleira encantada. Lá chegando o texugo voltou para sua forma animal e começou a lamentar:
-Ai está ardendo, estou todo queimado.

Enquanto passava ervas medicinais nas queimaduras do texugo, Jimbei o aconselhava a voltar para a floresta e parar de enganar os seres humanos com sua ilusão transformista. O texugo dizia que não poderia voltar para a mata, sem antes pagar sua dívida de gratidão para com Jimbei, que o salvara dos meninos e tratara suas queimaduras.

Jimbei estava preocupado em como poderia pagar o monge do mosteiro, quando o texugo lhe sugeriu:

-Que tal você abrir um teatro com espetáculos circenses. Poderia ganhar muito dinheiro cobrando entrada nas apresentações.
-E que espetáculos seriam estes?
-A dança da chaleira equilibrista em corda bamba! E outras atrações.
-É parece uma boa idéia, não custa nada tentar.

Após alguns dias de treinamento, o teatro improvisado foi inaugurado com a presença de grande público infantil. Devido o sucesso do espetáculo, viajaram para se apresentar em várias cidades. E assim, Jimbei ganhou muito dinheiro.

Um dia resolveram parar porque já estavam cansados de trabalhar. Jimbei levou a chaleira ao templo e contou toda história de sua trajetória a Osho-san, doando ao templo metade do dinheiro que havia ganho com os espetáculos.

Ainda hoje, passados vários séculos, a chaleira encantada está guardada no templo Morin-ji, como tesouro artístico do templo ao lado de pinturas e esculturas.

Fim

 
Adaptação livre de Claudio Seto

 

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