Julia
Sezaki: 30 pessoas foram à sua casa para comer um churrasquinho
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(Reportagem
e Foto: Osny Arashiro/IPC)
Uma das primeiras
brasileiras a chegar a Hamamatsu (Shizuoka), Julia Sezaki completou 63
anos no dia 18, o mesmo dia em que se comemora a chegada do navio Kasato
Maru ao Porto de Santos, que trouxe os primeiros imigrantes para o Brasil.
Em seu passaporte, o carimbo marca o dia em que desembarcou no Japão:
28 de fevereiro de 1979.
Nessa época,
não se imaginava que haveria o movimento dekassegui. Julia é
a terceira brasileira a se registrar na prefeitura de Hamamatsu (não
se tem notícia das duas antecessoras). Mas foi quem acompanhou
todo o movimento dekassegui, desde a chegada dos primeiros deles, e a
primeira a prestar serviços voluntários aos conterrâneos.
Tudo começou
na Suzuki Motors do Brasil, instalada no bairro da Lapa, em São
Paulo (SP), para onde havia sido transferido o japonês Masami, que
viria a ser seu marido. Julia já dominava o idioma japonês
e assim o namoro entre os dois começou. Posteriormente, Masami
foi chamado de volta ao Japão, e o namoro prosseguiu por cartas
durante um ano, até que, em fevereiro de 1979, ela desembarcou
em Hamamatsu levando na mala seu vestido de noiva. Três dias depois,
estavam casados. Em seguida, porém, Masami foi transferido para
a Colômbia, onde residiram durante oito anos.
A vida de Julia
em Hamamatsu começou mesmo a partir de 1987, quando regressou ao
Japão. Demoraram ainda alguns anos até que ela encontrasse
os brasileiros. Foi durante um passeio no centro da cidade que ouviu pela
primeira vez um grupo conversando em português. Eram os primeiros
dekasseguis de Hamamatsu. Julia ficou contente por encontrá-los
e convidou todo mundo para um churrasquinho no quintal de sua casa. Achei
que eles não fossem aceitar, mas vieram, sim, e eram cerca de 30
pessoas, lembra. Fiquei apavorada porque naquela época
não tinha loja de produtos brasileiros. O jeito foi fazer churrasco
com aquelas tirinhas de carne do supermercado, conta com bom humor.
Esses brasileiros ficaram muito dependentes de mim, pois passei
a ser a tsuyaku (intérprete) deles em tudo.
Em 1991, com
a população de brasileiros aumentando, Julia foi convidada
para assumir a coordenadoria latino-americana da Hice (Fundação
para Comunicação e Intercâmbio Internacional de Hamamatsu),
cargo que exerceu durante uma década. Em 1994, já atendia
por ano mais de mil brasileiros e peruanos. Ao mesmo tempo, a prefeitura
também precisou de seus serviços porque não havia
tradutores e muitas pessoas pediam para Julia acompanhá-las em
hospitais, fábricas, escolas e empreiteiras. Ela foi a primeira
professora de português na cidade, além de ensinar culinária
brasileira já foi até premiada num concurso promovido
pela Chubu Gas. Nas horas vagas, faz pinturas em telas e participa de
exposições.
Ao fazer um
balanço do movimento dekassegui nesses anos todos, o que mais a
entristece são os danos emocionais aos imigrantes. Muita
gente vinha na Hice me procurar para conversar. Além de intérprete,
passei a ser uma espécie de psicóloga, brinca. Vinha
brasileiro reclamar que o colega japonês da fábrica não
dava as peças na mão dele e preferia jogar. Também
já fiz velório para brasileiro sem família. As pessoas
vinham conversar comigo e iam embora sorridentes. Para mim essa era minha
maior satisfação, conta Julia, que hoje é intérprete
em uma escola.
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