Na
paisagem sul-mato-grossense, o eucalipto ganha áreas de pastagem |
(Texto e Fotos:
Antônio José do Carmo)
A hegemonia
da pecuária de corte que fez o Estado do Mato Grosso do Sul ser
o maior produtor de carne do Brasil está ameaçada na região
de Três Lagoas por causa das florestas de eucaliptos que estão
invadindo a região leste, num raio de 100 quilômetros.
O epicentro
da revolução cultural rural é a maior fábrica
de papel e celulose da América Latina em construção
às margens do Rio Paraná, naquele município. Ela
já expulsou 250 mil cabeças de bovinos na engorda para ocupar
240 mil hectares e inicia a segunda fase agressiva no mercado da monocultura,
pois vai precisar de mais 500 mil hectares.
O agrônomo
Jorge Baba, dono de uma fazenda que trocou todas as 1.800 cabeças
de gado por uma floresta de eucalipto, justifica que abandonar a pecuária
de corte foi uma tentação irresistível sob o ponto
de vista econômico.
Um fenômeno
semelhante está ocorrendo na região noroeste, onde os tradicionais
produtores de gado substituíram suas pastagens por cana-de-açúcar,
destinada a abastecer um novo parque industrial com mais de 40 unidades
de produção. Joge
Baba está convencido, no entanto, que arrendar a terra para o eucalipto
no Mato Grosso do Sul será mais rentável que trocar a mesma
atividade por cana no Estado de São Paulo.
A vantagem
está no preço bruto, mas também no cálculo
do capital investido, pois o hectare de terra no Mato Grosso do Sul está
custando 1/3 do que se paga em São Paulo. Baba
mora em Birigui e faz parte da geração de famílias
nikkeis que utilizaram o rendimento das lavouras no noroeste paulista
para adquirir terras no MS. Ele entregou 100% da fazenda em Três
Lagoas para o plantio de eucalipto.
A contratante
foi a VCP- Votorantin Celulose e Papel, empresa parceira americana International
Paper, responsável pela parte industrial da fábrica que
está em construção.
São
14 anos de domínio total da VCP sobre sua fazenda, mas os
pagamentos com valores entre R$ 150,00 e R$ 200,00 por hectare/ano são
pagos mensalmente, sempre um dia antes do vencimento, afirmou Baba.
Segundo ele, o rendimento da pecuária está abaixo da metade
desse valor. O gado que estava lá foi transferido para o Mato Grosso,
na Região Amazônica, onde a família possui outra fazenda.
Baba admite que a valorização imobiliária no sul
e o uso das terras para grandes atividades do agronegócio industrial
vão tanger o gado para a Amazônia e conseqüentemente
provocar desmatamentos para formação de novas pastagens.
Uma
mudança histórica
A pressão
do eucalipto sobre a tradicional cultura do boi rompe um ciclo de 50 anos
quando o cerrado matogrossense ganhou valor e importância. O motivo
na época foi um capim muito especial: a braquiária, que
vigorava em solos pobres, como nos cerrados brasileiros. O leste do Mato
Grosso do Sul virou uma monocultura desse capim. Mas,
o eucalipto também vai bem em solo arenoso. Antes de a fábrica
de papel e celulose ser anunciada, o plantio do eucalipto tinha a finalidade
de abastecer o parque siderúrgico paulista, com a produção
de carvão vegetal. No entanto, menos de 10 mil hectares estavam
ocupados com essa atividade.
Sílvio
Miúra, dono de uma fazenda a 25 quilômetros da futura
fábrica de papel |
Hoje a braquiária,
ainda predominante, depende do boi que, nos últimos cinco anos,
desvalorizou-se astronomicamente nos cálculos do advogado e fazendeiro
Silvio Miúra, de Três Lagoas.
Miúra
é dono de uma fazenda que fica a apenas 25 quilômetros da
futura fábrica de papel. Ele foi um dos primeiros pecuaristas a
ser procurado pelos investidores. Por isso, o contrato dele foi feito
em 2005 com a empresa International Paper. Com ela, Miúra disse
que o produtor tinha mais vantagens: meu contrato foi de participação
em 35% da produtividade da fazenda, por um período de 14 anos.
Em relação ao faturamento que ele tinha com o gado, o
plantio de eucalipto significa o dobro da renda.
Apesar da garantia
do lucro, Miúra disse que não ocupou a fazenda inteira com
a floresta artificial. Dos 2.400 hectares, 30% ainda ficaram para a pecuária
de corte. É importante mantermos a diversidade, porque na
economia rural o que mais ocorre são os imprevistos, afirmou
o empresário.
O pecuarista
Roberto Imada, cuja família possui propriedade rural com quase
mil cabeças de gado em Três Lagoas, também está
propenso a trocar as pastagens pelo eucalipto.
A pecuária
de corte faz a gente viver um clima de insegurança, nas mãos
dos frigoríficos que formam cartéis e ditam os preços
abaixo do custo de manutenção das fazendas, disse
Imada. Ele considera que as pastagens estão deterioradas porque,
sem poder de investimento, os pecua-ristas abandonaram as práticas
de recuperação do solo.
Os próprios
organismos oficiais do Mato Grosso do Sul informam que mais de 80% das
pastagens que estão recebendo o plantio de eucalipto estavam degradadas
e não permitiam uma lotação acima de uma cabeça
de gado adulto por hectare.
(*Especial
para o Nippo no Campo)
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