Horário de Brasília: Segunda-feira, 01 de dezembro de 2008 - 17h08
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Cultivo de eucalipto expulsa boi em MS

Na paisagem sul-mato-grossense, o eucalipto ganha áreas de pastagem

(Texto e Fotos: Antônio José do Carmo)

A hegemonia da pecuária de corte que fez o Estado do Mato Grosso do Sul ser o maior produtor de carne do Brasil está ameaçada na região de Três Lagoas por causa das florestas de eucaliptos que estão invadindo a região leste, num raio de 100 quilômetros.

O epicentro da revolução cultural rural é a maior fábrica de papel e celulose da América Latina em construção às margens do Rio Paraná, naquele município. Ela já expulsou 250 mil cabeças de bovinos na engorda para ocupar 240 mil hectares e inicia a segunda fase agressiva no mercado da monocultura, pois vai precisar de mais 500 mil hectares.

O agrônomo Jorge Baba, dono de uma fazenda que trocou todas as 1.800 cabeças de gado por uma floresta de eucalipto, justifica que abandonar a pecuária de corte foi uma tentação irresistível sob o ponto de vista econômico.

Um fenômeno semelhante está ocorrendo na região noroeste, onde os tradicionais produtores de gado substituíram suas pastagens por cana-de-açúcar, destinada a abastecer um novo parque industrial com mais de 40 unidades de produção. Joge Baba está convencido, no entanto, que arrendar a terra para o eucalipto no Mato Grosso do Sul será mais rentável que trocar a mesma atividade por cana no Estado de São Paulo.

“A vantagem está no preço bruto, mas também no cálculo do capital investido, pois o hectare de terra no Mato Grosso do Sul está custando 1/3 do que se paga em São Paulo”. Baba mora em Birigui e faz parte da geração de famílias nikkeis que utilizaram o rendimento das lavouras no noroeste paulista para adquirir terras no MS. Ele entregou 100% da fazenda em Três Lagoas para o plantio de eucalipto.

A contratante foi a VCP- Votorantin Celulose e Papel, empresa parceira americana International Paper, responsável pela parte industrial da fábrica que está em construção.

São 14 anos de domínio total da VCP sobre sua fazenda, mas “os pagamentos com valores entre R$ 150,00 e R$ 200,00 por hectare/ano são pagos mensalmente, sempre um dia antes do vencimento”, afirmou Baba. Segundo ele, o rendimento da pecuária está abaixo da metade desse valor. O gado que estava lá foi transferido para o Mato Grosso, na Região Amazônica, onde a família possui outra fazenda. Baba admite que a valorização imobiliária no sul e o uso das terras para grandes atividades do agronegócio industrial vão tanger o gado para a Amazônia e conseqüentemente provocar desmatamentos para formação de novas pastagens.

Uma mudança histórica

A pressão do eucalipto sobre a tradicional cultura do boi rompe um ciclo de 50 anos quando o cerrado matogrossense ganhou valor e importância. O motivo na época foi um capim muito especial: a braquiária, que vigorava em solos pobres, como nos cerrados brasileiros. O leste do Mato Grosso do Sul virou uma monocultura desse capim. Mas, o eucalipto também vai bem em solo arenoso. Antes de a fábrica de papel e celulose ser anunciada, o plantio do eucalipto tinha a finalidade de abastecer o parque siderúrgico paulista, com a produção de carvão vegetal. No entanto, menos de 10 mil hectares estavam ocupados com essa atividade.


Sílvio Miúra, dono de uma fazenda a 25 quilômetros da futura fábrica de papel

Hoje a braquiária, ainda predominante, depende do boi que, nos últimos cinco anos, desvalorizou-se astronomicamente nos cálculos do advogado e fazendeiro Silvio Miúra, de Três Lagoas.

Miúra é dono de uma fazenda que fica a apenas 25 quilômetros da futura fábrica de papel. Ele foi um dos primeiros pecuaristas a ser procurado pelos investidores. Por isso, o contrato dele foi feito em 2005 com a empresa International Paper. Com ela, Miúra disse que o produtor tinha mais vantagens: “meu contrato foi de participação em 35% da produtividade da fazenda, por um período de 14 anos”. Em relação ao faturamento que ele tinha com o gado, “o plantio de eucalipto significa o dobro da renda”.

Apesar da garantia do lucro, Miúra disse que não ocupou a fazenda inteira com a floresta artificial. Dos 2.400 hectares, 30% ainda ficaram para a pecuária de corte. “É importante mantermos a diversidade, porque na economia rural o que mais ocorre são os imprevistos”, afirmou o empresário.

O pecuarista Roberto Imada, cuja família possui propriedade rural com quase mil cabeças de gado em Três Lagoas, também está propenso a trocar as pastagens pelo eucalipto.

“A pecuária de corte faz a gente viver um clima de insegurança, nas mãos dos frigoríficos que formam cartéis e ditam os preços abaixo do custo de manutenção das fazendas”, disse Imada. Ele considera que as pastagens estão deterioradas porque, sem poder de investimento, os pecua-ristas abandonaram as práticas de recuperação do solo.

Os próprios organismos oficiais do Mato Grosso do Sul informam que mais de 80% das pastagens que estão recebendo o plantio de eucalipto estavam degradadas e não permitiam uma lotação acima de uma cabeça de gado adulto por hectare.

(*Especial para o Nippo no Campo)

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