Horário de Brasília: Segunda-feira, 01 de dezembro de 2008 - 17h00
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Especial
Cana chega às melhores terras do noroeste paulista

Otimismo
Eurico Tanaka trocou a pecuária
pela cana: lucro certo

Cautela
Paulo Yamamoto: apenas metade
da fazenda foi arrendada

(Texto: Antônio José do Carmo*)

A região noroeste paulista ainda vive a euforia de substituir a pecuária de corte pelas lavouras de cana-de-açúcar. Pereira Barreto, uma cidade que nasceu há 80 anos por causa dos imigrantes japoneses, também não resistiu à vocação de agricultura familiar e se entregou à cana, que, segundo dados não oficiais, já deve ter atingido mais de 70% da área rural.

O zootecnista e fazendeiro Paulo Massanori Yamamoto, filho de uma tradicional família de imigrantes japoneses que fundou o município, diz que depois de Ribeirão Preto está em Pereira Barreto uma das melhores terras de agricultura do Estado de São Paulo, com terra roxa e mista. Segundo ele, toda essa faixa entre os rios Tietê e São José dos Dourados, que deságuam no Paraná, já está ocupada pelos canaviais.

Foi de Yamamoto a iniciativa de trazer os investidores da Usina Santa Adélia, de Jaboticabal, para montar uma destilaria em Pereira Barreto. Como diretor do Sindicato Rural, ele convocou os proprietários rurais e ficou surpreso com a aceitação do projeto. Mais de 80% dos filiados da entidade aderiram ao plantio de cana.

Mas, ao contrário de uma parte, que entrou de forma apaixonada na onda da cana, oferecendo todas as áreas disponíveis de suas fazendas em arrendamento por mais de 20 anos, Yamamoto tem sido mais cauteloso. Só metade da área de sua fazenda foi arrendada para o plantio de cana, ainda assim por apenas cinco anos.

O preço do arrendamento das terras de pecuária pelas usinas de álcool vem caindo anualmente. Já foi de 50 toneladas de cana por hectare/ano ao produtor. Esteve em 28 toneladas e, hoje, gira em torno de 35 toneladas.

Os preços da cana-de-açúcar no mercado também caíram de R$ 45 para R$ 28 a tonelada. Há indefinições também a longo prazo, pois o Brasil encontrou um jazida de petróleo que poderá mudar o panorama de desenvolvimento do parque industrial e canavieiro e do consumo do álcool combustível no País.

Essas oscilações preocupam Yamamoto, para quem a única arma é evitar a monocultura. “Ela é ruim para o país, para o meio ambiente e para o produtor”, diz.

O fazendeiro Eurico Tanaka acabou com a atividade de pecuária em Pereira Barreto. Em Mato Grosso do Sul, ele continua criando bois, mas não deve ser por muito tempo. Se em São Paulo foram os usineiros quem pressionaram o uso do solo para a monocultura da cana, no vizinho Estado matogrossense, a pressão vem da Votorantim Papel e Celulose, que precisa de muito eucalipto para fazer funcionar a maior fábrica de papel da América Latina, em construção no município de Três Lagoas.

“Não há como evitar, você faz as contas e percebe aquilo que dá mais lucro e pronto”, diz Tanaka, profetizando que o preço da cana deve aumentar em São Paulo porque, na maioria dos municípios, já existem concorrência entre usinas, na disputa dos produtores.

Tanaka considera que uma arma importante para o futuro próximo é o fazendeiro dono da terra dominar a tecnologia de plantio e colheita mecânica da cana. “Hoje, entregamos a eles nossa terra para que façam o que bem entendam, mas o preço está sendo muito caro. Precisamos aprender a cultivar a cana e ganhar esse dinheiro que está ficando com eles”, diz o pecuarista.

Ele defende ainda a mecanização, não por questões ambientais: “[mas porque] a legislação brasileira é contra o empregador e ninguém quer lidar com gente; melhor a máquina”. Sobre a ameaça do Brasil como exportador de petróleo, Tanaka prefere novamente a lógica fria: “Quem vai ser burro de ser contra a energia limpa do álcool e seu poder de conter a poluição do ar nos grandes centros?”

(*Especial para o NB)

 
Solo estava muito pobre

(Texto: Antônio José do Carmo*)

O agrônomo Sérgio Massuda, que também é administrador de fazendas na região noroeste Paulista, diz que o preço baixo dos arrendamentos pode ser resultado de uma expectativa frustrada dos investidores. Na opinião dele, as terras da pecuária de corte, segundo dados oficiais do governo estadual, há cinco anos eram consideradas degradadas em mais de 75% de seus 1,6 milhão de hectares.

Massuda não tem dúvida de que essa precária qualidade do solo, lavado e sem nutrientes, empobrecido e judiado pela erosão, é responsável pela baixa produtividade média que está se obtendo nas lavouras de cana mais jovens. A seca também tem castigado a região. Por causa disso, a expectativa de obter cinco cortes na mesma lavoura está caindo por terra, com a morte de alguns brotos.

Tudo isso, na opinião de Sérgio, são prejuízos de pastagens malcuidadas. Fazendas onde havia lavouras de milho, por exemplo, o desempenho das lavouras de cana tem sido acima das expectativas com produtividades elevadas.

A monocultura da cana também é criticada por Massuda nas questões ambientais. Ele diz que é comum a invasão de áreas de preservação ou reservas legais para plantio de cana. Os desmatamentos também foram intensificados e os pagamentos ambientais não são fiscalizados.

Para Massuda, os municípios deveriam estabelecer critérios para o plantio em seus territórios, já que a legislação permite essa possibilidade.

(*Especial para o NB)

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