|
(Texto: Antônio
José do Carmo*)
A região
noroeste paulista ainda vive a euforia de substituir a pecuária
de corte pelas lavouras de cana-de-açúcar. Pereira Barreto,
uma cidade que nasceu há 80 anos por causa dos imigrantes japoneses,
também não resistiu à vocação de agricultura
familiar e se entregou à cana, que, segundo dados não oficiais,
já deve ter atingido mais de 70% da área rural.
O zootecnista
e fazendeiro Paulo Massanori Yamamoto, filho de uma tradicional família
de imigrantes japoneses que fundou o município, diz que depois
de Ribeirão Preto está em Pereira Barreto uma das melhores
terras de agricultura do Estado de São Paulo, com terra roxa e
mista. Segundo ele, toda essa faixa entre os rios Tietê e São
José dos Dourados, que deságuam no Paraná, já
está ocupada pelos canaviais.
Foi de Yamamoto
a iniciativa de trazer os investidores da Usina Santa Adélia, de
Jaboticabal, para montar uma destilaria em Pereira Barreto. Como diretor
do Sindicato Rural, ele convocou os proprietários rurais e ficou
surpreso com a aceitação do projeto. Mais de 80% dos filiados
da entidade aderiram ao plantio de cana.
Mas, ao contrário
de uma parte, que entrou de forma apaixonada na onda da cana, oferecendo
todas as áreas disponíveis de suas fazendas em arrendamento
por mais de 20 anos, Yamamoto tem sido mais cauteloso. Só metade
da área de sua fazenda foi arrendada para o plantio de cana, ainda
assim por apenas cinco anos.
O preço
do arrendamento das terras de pecuária pelas usinas de álcool
vem caindo anualmente. Já foi de 50 toneladas de cana por hectare/ano
ao produtor. Esteve em 28 toneladas e, hoje, gira em torno de 35 toneladas.
Os preços
da cana-de-açúcar no mercado também caíram
de R$ 45 para R$ 28 a tonelada. Há indefinições também
a longo prazo, pois o Brasil encontrou um jazida de petróleo que
poderá mudar o panorama de desenvolvimento do parque industrial
e canavieiro e do consumo do álcool combustível no País.
Essas oscilações
preocupam Yamamoto, para quem a única arma é evitar a monocultura.
Ela é ruim para o país, para o meio ambiente e para
o produtor, diz.
O fazendeiro
Eurico Tanaka acabou com a atividade de pecuária em Pereira Barreto.
Em Mato Grosso do Sul, ele continua criando bois, mas não deve
ser por muito tempo. Se em São Paulo foram os usineiros quem pressionaram
o uso do solo para a monocultura da cana, no vizinho Estado matogrossense,
a pressão vem da Votorantim Papel e Celulose, que precisa de muito
eucalipto para fazer funcionar a maior fábrica de papel da América
Latina, em construção no município de Três
Lagoas.
Não
há como evitar, você faz as contas e percebe aquilo que dá
mais lucro e pronto, diz Tanaka, profetizando que o preço
da cana deve aumentar em São Paulo porque, na maioria dos municípios,
já existem concorrência entre usinas, na disputa dos produtores.
Tanaka considera
que uma arma importante para o futuro próximo é o fazendeiro
dono da terra dominar a tecnologia de plantio e colheita mecânica
da cana. Hoje, entregamos a eles nossa terra para que façam
o que bem entendam, mas o preço está sendo muito caro. Precisamos
aprender a cultivar a cana e ganhar esse dinheiro que está ficando
com eles, diz o pecuarista.
Ele defende
ainda a mecanização, não por questões ambientais:
[mas porque] a legislação brasileira é contra
o empregador e ninguém quer lidar com gente; melhor a máquina.
Sobre a ameaça do Brasil como exportador de petróleo, Tanaka
prefere novamente a lógica fria: Quem vai ser burro de ser
contra a energia limpa do álcool e seu poder de conter a poluição
do ar nos grandes centros?
(*Especial
para o NB)
|