Horário de Brasília: Segunda-feira, 06 de outubro de 2008 - 15h06
Seções
Especial
Verduras brasileiras no Japão

(Texto: Thassia Ohphata/ipcdigital.com)

Diferentemente do que ocorreu com os primeiros brasileiros que foram ao Japão, no início da década de 90, hoje, quem chega no arquipélago dificilmente sentirá falta da culinária verde-amarela. Em todo o país, são inúmeras as opções de lojas de produtos, além das importadoras e restaurantes brasileiros. E, mesmo nas regiões em que não há comércio brasileiro, os caminhões percorrem esses locais vendendo produtos típicos. Na era da internet, existe ainda a opção de compras pela rede com direito a entregas em domicílio.

Nas prateleiras desses estabelecimentos, o feijão e o café dividem espaço com verduras e legumes típicos do Brasil. Para atender esse mercado, surgiram as hortas especializadas em verduras brasileiras. Couve, beterraba, mandioca, chuchu e abobrinha produzidos no Japão também fazem parte do cardápio diário de muitos brasileiros.

Um dos empreendedores desse ramo é o japonês Haruo Hayashi, de Oizumi (Gunma). Há 15 anos ele cultiva verduras e legumes e, hoje, distribui os seus produtos para todo o país, inclusive para grandes redes de supermercados japoneses, como o Itoyokado de Hamamatsu (Shizuoka). Natural da província Miyazaki, Hayashi viveu no Brasil por mais de 20 anos.

Aqui, Hayashi aprendeu com os amigos da região de Limeira, Holambra e Artur Nogueira, em São Paulo, as técnicas do cultivo de verduras. Em 92, quando retornou ao Japão, levou na bagagem sementes de couve e almeirão que se adaptaram bem ao clima do país. “Aproveitava os finais de semana para cuidar da horta e distribuía as verduras para os conhecidos. Foi aí que resolvi fazer disso um negócio”, conta.

O negócio cresceu e, a partir de 96, passou a dedicar-se exclusivamente à produção de hortaliças. Antes, dividia-se entre o trabalho na fábrica e as hortas. Para cuidar da produção, hoje, Hayashi tem a ajuda de japoneses. No total, 43 casas (nouka), espalhadas na região de Ota (Gunma), cultivam couve, rúcula, salsa, coentro, almeirão, beterraba, chicória, mostarda, chuchu, abobrinha, jiló, rabanete, pimenta e outras verduras brasileiras.

Atualmente, só de couve manteiga, uma das hortaliças mais procuradas, a produção é de cerca de 3 mil pacotes por semana. “Recebo muitos pedidos e quase não estou dando conta. Quero aumentar o número de pessoas que plantem”, afirma o horticultor. Ele calcula que cerca de 80% de seus clientes sejam brasileiros.

As sementes que são distribuídas para os agricultores vêm do Brasil, França, Itália e Holanda. Superadas as dificuldades e diferenças no clima e na terra, o produtor conta que, até hoje, só não conseguiu cultivar a mandioquinha. “Já tentei de tudo, mas não deu. Até desisti”, brinca.

A atividade também atraiu a atenção de Nilton Bueno, de Mooka (Tochigi). Há quatro anos, ele cuida de uma horta só com verduras brasileiras. Com alguns terrenos emprestados, que totalizam cerca de um alqueire de plantação, Bueno cultiva alface mimosa, rúcula, couve, pimentão, jiló, abobrinha, beterraba, chuchu, quiabo, e, conforme a época, mandioca e milho verde brasileiro.

Ele explica que a idéia da horta brasileira surgiu quando sua mãe foi ao Japão a passeio. “Na época, tinha pedido para ela trazer uma rama de mandioca para plantar, já que ela não era encontrada com facilidade no Japão. Mas, no primeiro ano, o plantio não deu certo”, recorda. “Além disso, queria dar uma ocupação para o meu sogro, que tem 70 anos”, acrescenta ele.

Na ocasião, um amigo japonês ofereceu um pedaço de terreno para plantar. “A partir daí, outros japoneses começaram a oferecer terrenos para que pudesse plantar, tudo emprestado, só com a condição de cuidar do local”, diz. Com isso, o brasileiro também viu a necessidade de adquirir equipamentos e, atualmente, possui duas estufas, um pequeno trator, um truck e bombas de irrigação. Além de ser uma fonte extra, para ele, a atividade também é uma forma de preencher melhor o seu tempo.

 
Tudo começou com uma muda de agrião
Foto: Osny Arashiro/ipcdigital.com

A horta tornou-se um empreendimento familiar para os Oikawa, que residem em Hamamatsu

(Texto: Osny Arashiro/IPC)

Quando Mário Fumihiro Oikawa chegou ao Japão, no início da década de 90, logo sentiu vontade de preparar uma salada brasileira. Mas, no supermercado, encontrou o tradicional agrião, com cerca de 15 cm, que mais parecia uma muda.

Foi então que teve a idéia de plantar em casa aquelas “mudas” de agrião para consumo próprio. A muda pegou e Oikawa teve a idéia de pedir sementes do Brasil. Em pouco tempo, tinha uma horta de fundo-de-quintal, com salsa, couve e coentro, na periferia de Hamamatsu (Shizuoka). As sementes eram enviadas pelo Correio.

Hoje, ele está ciente de que, para efeito comercial, as sementes precisam da aprovação do Ministério da Agricultura do Japão. “Acredito que não exista uma verdura que tenha sido introduzida por brasileiros no Japão. O que acontece é que os brasileiros consomem mais essas verduras consideradas ‘brasileiras’, mas o japonês também conhece e cultiva, embora não faça parte da sua culinária diária”, diz.

A horta de Oikawa ganhou outras dimensões. Hoje, seus produtos abastecem os grupos Takara, Kioske, The Amigos, Bom Brasil, Brasmarket, Tio Coutinho’s, Restaurante Dona Flor e Paraíso Brasil. “Os cerca de 10 mil metros quadrados de terra são alugados sob contrato, pois sempre existe a possibilidade de o dono pedir o terreno de volta em meio à produção”, diz Kenji.

A família Oikawa cultiva salsa, coentro, rúcula, espinafre, couve, agrião, hortelã, rabanete, alface, chicória, beterraba, chuchu, jiló, abobrinha, entre outros. No empreendimento, ainda trabalham a nora, Cristiane, e o irmão, Luiz.

No Brasil, é comum a geada acabar com muitas colheitas. Mas, no Japão, ao contrário, é o calor o grande destruidor de plantações, mais do que o pulgão e as ervas daninhas. “O verão do Japão é úmido e traz bactérias, vírus e doenças. O inverno é seco e não cria doenças”, lembra Kenji. “Por essa razão, uma estufa resolve o problema do frio, mas não do calor, que não tem como controlar.”

Arquivo