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Caderno
Especial
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O
Japão na visão do cinema ocidental
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Grandes
produções hollywoodianas têm o Japão como tema
central. Será, entretanto, que esses megassucessos conseguem transpor
para a Sétima Arte de forma fiel os elementos culturais da sociedade
japonesa?
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(Texto: Erika
Horigoshi/NB | Fotos: Divulgação e Reprodução)
Ocidente quer
saber mais sobre o Japão. Bem, isso é o que se pode concluir
com base nas diversas iniciativas que, tendo o Japão como tema,
têm atraído a atenção de um número cada
vez maior de pessoas deste lado do globo. No mundo do cinema,
esse fenômeno não é diferente. Ao longo dos últimos
anos, Hollywood conseguiu emplacar nas telas de vários países,
não apenas dos Estados Unidos, verdadeiros blockbusters,
grandes filmes de sucesso de bilheteria e de crítica.
Para aqueles
que, não tendo contato maior com a cultura japonesa nem tipo algum
de ascendência familiar, assistir a esses filmes pode ser uma porta
de entrada para entender mais sobre o povo do país do Sol
Nascente. Entretanto, esse processo se torna preocupante quando as produções
cinematográficas em questão não passam uma impressão
muito próxima à realidade que os japoneses vivem ou já
viveram em sua história. Nesse contexto, fica a questão:
até onde a inverossimilhança na transposição
de elementos culturais para as telas de cinema pode interferir na imagem
que seus espectadores passam a ter sobre o Japão?
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| Tesouro
cultural japonês: o Samurai |

Valores:
película mostra as qualidades dos samurais |
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Pelo menos
duas grandes produções do cinema americano sobre o Japão
tiveram grande impacto sobre o público e também acarretaram
enormes sucessos de bilheteria. Trata-se dO Último Samurai
e de Memórias de uma Gueixa, tramas que têm em comum o contato
com fortes figuras do universo cultural japonês e que, nessa mescla,
apresentam um perceptível embate que caracteriza produções
que procuram ter essência oriental, a exemplo de suas tramas, mas
que, por razões comerciais, possuem traços da produção
de mercado ocidental. O Último Samurai é uma produção
americana e, como tal, retrata a figura do samurai de acordo com os estereótipos
característicos do cinema americano, diz Marco Souza, professor
doutor em Comunicação e Semiótica, pesquisador e
editor da revista eletrônica Yûkei e-zine do Centro de Estudos
Orientais da PUC de São Paulo. Acredito que O Último
Samurai tenha tentado realizar uma abordagem convincente sobre um dos
ícones da cultura japonesa, mas acabou caindo numa adaptação
do imaginário da platéia americana sobrecarregada pelo lado
poético, complementa a pesquisadora do Centro de Estudos
Orientais da PUC-SP e da Escola Modelo de Língua Japonesa de Goiás,
Cecília Noriko Saito.
Entretanto,
pelo ponto de vista cinematográfico, O Último Samurai consegue
cumprir relativamente bem o difícil trabalho de levar a platéias
ocidentais um pouco sobre o importante período histórico
retratado no filme. Acredito que não seja a função
de um filme de ficção, mesmo de uma cinebiografia, retratar
fielmente os conceitos. Esse tipo de função caberia em alguns
tipos de documentários. O Último Samurai trata de um herói
que perdeu a honra e a crença por acatar ordens de seus superiores
e que irá recuperar sua crença por meio dos valores samurais,
observa Marcos Takeda, coordenador de cursos da Educine, Associação
Cultural Educação e Cinema. Segundo ele, a produção
estrelada por Tom Cruise e Ken Watanabe foi respeitosa e conseguiu passar
para o espectador o valor do samurai.
Ricardo Matsumoto,
editor da revista SET, concorda com Takeda: Em minha opinião,
O Último Samurai é um filme brilhante. Mostra com extremo
respeito a cultura japonesa, principalmente no que se refere à
relação familiar entre pai e filho. O filme não é
uma unanimidade, mas eu a considero uma produção de primeira
linha, avalia.
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| Curiosidade:
alguns erros de O Último Samurai |
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A pedido do
Zashi, a professora Maria Fusako Tomimatsu, da Universidade Estadual
de Londrina (UEL), analisou algumas cenas do filme O Último
Samurai. Veja, a seguir, as observações dela sobre a
transposição de conceitos culturais para a película:
A
questão da honra do samurai no final da Era Edo, às vésperas
da Era Meiji, já não era vista com o fanatismo que mostra
o filme. Um século de reclusão do Japão ao Ocidente,
com exceção do contato com alguns países, tornou
extinta a função do samurai como guerreiro.
Em
uma das cenas da cidade, entre os transeuntes, há a presença
de gueixas fora de contexto, bem como de outros figurantes
posicionados ali como um pout-pourri figuras humanas.
Na
batalha no meio do bosque, a vegetação filmada, de troncos
e xaxins, é estranha ao clima japonês; bem como as casas
japonesas construídas como cenário não condizem com
o desenho do relevo do Japão, repleto de montanhas e colinas.
Há
uma cena em que damas da corte são apresentadas ao fundo vestindo
trajes que remetem ao século V. Nesta mesma cena, o jovem imperador,
em primeiro plano, está vestindo um traje com o qual jamais poderia
aparecer circulando pelos corredores do palácio.
Ainda
sobre o príncipe, há um momento no filme em que ele aparece
vestindo um quimono branco e um hakama vermelho. Essas cores são
utilizadas por sacerdotisas [miko] de templos xintoístas.
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| Um
mesmo assunto; ângulos diferentes |
Política:
drama de Iwo Jima foi bem desenvolvido por Clint Eastwood |
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No grupo de
produções hollywoodianas sobre o Japão, Cartas de
Iwo Jima e Questão de Honra certamente constituem um caso à
parte. Produções que abordam temas delicados, como guerras,
já são vistas de forma diferente pelo mercado. Em geral
e proporcionalmente ao trabalho de pesquisa realizado, elas passam a integrar
a categoria de fidelidade que beira a dos documentários.
As perspectivas mostradas por ambos são distintas e, em tempos
de atitudes politicamente corretas, Cartas de Iwo Jima surge como uma
possibilidade de dar voz a quem o cinema de Hollywood normalmente não
deu durante décadas, podera o professor Marco Souza. A pesquisadora
Cecilia Saito observa o cuidado com a pesquisa dos filmes dirigidos por
Eastwood: Cartas... apresenta fatos históricos e seus aspectos
com o devido cuidado de uma produção sem excessos.
Dois filmes
produzidos para mostrar ângulos diferentes de um mesmo fato histórico
(a grande batalha na ilha japonesa de Iwo Jima), o projeto de grandes
proporções encabeçado por Clint Eastwood foi extremamente
bem recebido pela crítica especializada. O público, no entanto,
conferiu a esses dois filmes uma modesta bilheteria. A idéia
de Clint Eastwood de mostrar a batalha pelos dois lados foi acertada.
Pouca gente em Hollywood costuma tomar atitudes como essa. Os filmes foram
sucesso de crítica, mas não de bilheteria. São produções
que mostram que ninguém vence uma guerra, analisa Ricardo
Matsumoto, da SET.
A professora
da Universidade Federal de Goiás e pesquisadora do CEO da PUC-SP,
Clélia Mello vai mais longe, ao relacionar a ideologia política
do diretor americano ao resultado das produções-irmãs
sobre Iwo Jima. Eastwood é um político de carteirinha.
Uma plataforma discursiva que agrade a gregos e troianos é
o sonho dos partidos de centro e, certamente, da indústria de entretenimento.
Em quaisquer circunstâncias, não se posicionar é uma
atitude política, avalia.
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| As
gueixas de Hollywood e o público do arquipélago |

Dualidade:
orçamento milionário e vários erros conceituais |
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Unanimidade
é uma palavra que não se pode aplicar à megaprodução
Memórias de uma Gueixa. Sucesso de bilheteria entre 2005 e 2006,
a produção assinada por Steven Spielberg causou grandes
manifestações no Japão, pelo fato de utilizar atrizes
chinesas nos papéis de gueixas e pelos vários erros conceituais
presentes na película. As críticas são procedentes.
As atrizes chinesas não conseguiram interpretar a essência
de uma figura feminina japonesa. Não basta a embalagem
para se tornar gueixa. Os gestos, o olhar e a postura denunciam que elas
não são japonesas. As críticas vieram do público
japonês, justamente pelo fato de as gueixas do filme serem tão
inverossímeis, que fizeram com que a produção transmitisse
uma inverdade ao público que desconhece a cultura japonesa,
analisa Maria Fusako Tomimatsu, diretora do Núcleo de Estudos da
Cultura Japonesa da Assessoria de Relações Internacionais
da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
De acordo com
Marco Souza, a superprodução protagonizada por Zang Ziyi
e Ken Watanabe foi prejudicada em sua aproximação com a
realidade da verdadeira gueixa por obedecer a questões práticas
e mercadológicas: A escolha das atrizes chinesas levou em
conta o fato de elas serem conhecidas do mercado americano.
Já Marcos
Takeda apresenta um ponto de vista mais concessivo em relação
à produção inspirada na história real de Mineko
Iwasaki. Algumas das chamadas licenças poéticas são
realmente necessárias para que o filme não crie aversão
ao público. Um exemplo disso é que, hoje, mostrar uma história
antiga e seguir fielmente costumes históricos, como o casamento
entre homens e meninas adolescentes de 12, 13 anos é considerado
um absurdo; entretanto, era o que ocorria, cita.
As críticas
gerais, contudo, tanto do povo japonês, quando do restante do público
conhecedor dos costumes do país oriental de fato tiraram o brilho
da película de orçamento milionário (mais de US$
80 milhões). Particularmente, não gosto de Memórias
de uma Gueixa. E não é pelo fato de terem colocado atrizes
chinesas nos papéis principais, mas porque o filme é, realmente,
ruim. Trata-se de um exemplo de como Hollywood pode dar uma visão
errada da cultura japonesa, opina Ricardo Matsumoto, da revista
SET.
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| Remakes
e o terror japonês |
Dúvida:
em Água Negra, optou-se pelo drama, e não pelo suspense |
Susto:
Hollywood caprichou nos efeitos especiais de O Chamado |
Quem não
sentiu pelo menos um ligeiro calafrio ao acompanhar as tramas de O Chamado,
O Grito, ou Água Negra? A resposta, claro, vai depender não
apenas do ponto de vista do espectador, mas também de qual versão
ele assistiu: as originais japonesas, ou as mercadologicamente modificadas
americanas. Hollywood tem passado por uma crise de criatividade
e anda buscando inspiração em filmes antigos e também
em produções de outros países. Os filmes de terror
japonês se mostraram lucrativos em seu país natal e os estúdios
americanos viram esse potencial, explica o editor da revista SET,
Ricardo Matsumoto.
As questões
que causaram calorosos debates entre o público que aprecia o terror
nas telas do cinema se deram principalmente em torno da questão
da refilmagem. Afinal, esse tipo de produção tira o mérito
da versão original? As alterações que o remake proporciona
são bem vistas? Notam-se diferenças na linguagem cinematográfica
japonesa e americana, como por exemplo a tendência oriental de evitar
ao máximo os closes, deixando a câmera mais estática,
ao passo que a filmagem americana utiliza closes em abundância e
muitos efeitos especiais, diz o coordenador de cursos da Educine,
Marcos Takeda.
Segundo Takeda,
o processo de adaptação das refilmagens é necessário
para deixar o roteiro plausível para a cultura de seu público
espectador, no caso, o americano. É preciso amarrar mais
as pontas, explicar cada detalhe e cada personagem que entra na trama
precisa ter suas características. Hollywood tem roteiristas experts
nesse tipo de transposição, afirma.
Um dos auges
das discussões sobre os remakes do terror japonês parece
ter sido quando Hollywood, ao refilmar Água Negra (dirigido pelo
brasileiro Walter Salles), decidiu mudar o final da trama. Walter
Salles queria muito mais um drama do que um suspense e os produtores queriam
transformar Água Negra em um novo O Chamado, comenta Matsumoto.
No remake,
o foco no horror é amenizado, principalmente no caso
de Água Negra. Já a essência da cinematografia japonesa
trabalha muito mais essa questão, analisa a professora e
pesquisadora Cecilia Noriko Saito.
O que fica
dessa verdadeira onda de remakes que chega ao mercado cinematográfico
constantemente é a visão artística e também
a mercadológica. Todo produto cultural pode ser reinventado.
O remake é ainda mais válido se nos traz a curiosidade de
assistir à versão original, opina o professor e pesquisador
Marco Souza. Nos últimos tempos, houve uma avalanche de refilmagens.
Não sou totalmente contra isso. Se a produção é
feita de maneira respeitosa, ela não tira o valor da versão
original, afirma Ricardo Matsumoto.
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