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Tudo estava
queimado. Os poucos sobreviventes fugiam dos incêndios causados
pela bomba atômica. O policial militar Takashi Morita não
conseguia ajudar muito, pois também se encontrava machucado. Em
Hiroshima, no calor insuportável, as moscas surgiam e colocavam
seus ovos nas feridas dos sobreviventes. Dali brotavam larvas. Quando
as vítimas morriam, as larvas saíam dos cadáveres
e chegavam a encher três pás de lixo pequenas. Para aliviar
os japoneses do exército de insetos, um mês e meio após
a rendição, um avião americano jogou DDT sobre a
cidade e, enfim, Hiroshima ficou livre deles. Livraram-se das moscas,
mas depois os cabelos caíram, saíram manchas no rosto, os
dentes sangraram e a maioria delas morreu. Vítimas que têm
um nome específico: hibakusha. O sol forte, a radiação,
a chuva negra, os mortos, os queimados; tudo aquilo tinha um cheiro único.
Inesquecível.
Antes do bombardeio
atômico em Hiroshima, Takashi já havia convivido com a morte:
no ataque à base aérea de Hamamatsu, onde se dirigiu logo
após ser convocado para trabalhar na manutenção dos
aviões de guerra; na desnutrição pela falta de alimentos
e na perseguição de um caça norte-americano no trem
durante a viagem a Hiroshima. Ao freqüentar a escola de Polícia
Militar em Nakano, Tóquio, presenciou os piores bombardeios que
a capital japonesa sofreu, principalmente em 13 de maio, quando mais de
cem mil pessoas morreram.
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O
policial Takashi sobreviveu à bomba atômica em 1945
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Takashi Morita é presidente da Associação
de Vítimas da Bomba Atômica no Brasil
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Takashi não
queria vivenciar tudo aquilo, então resolveu fugir das bombas incendiárias
que caíam na capital japonesa para estar mais próximo dos
pais. Pouco tempo depois, na madrugada de uma segunda-feira, percebeu
algo diferente. Às 0h25, soou o alarme de incursão aérea.
Era o aviso que uma aeronave inimiga iria lançar bombas. Não
houve ataque, e o alarme foi cancelado às 2h10. Após um
curto período de sono, às 7h09, o povo acordou novamente
com um sinal amarelo de alerta indicando a aproximação de
aeronave inimiga. Começava o dia 6 de agosto de 1945.
Muitos correram
para os refúgios antiaéreos. Como era apenas um avião
norte-americano voando a uma grande altitude, o alarme foi cancelado às
7h31. Os residentes abandonaram os abrigos e dirigiram-se ao trabalho.
Mais de 350 mil pessoas, incluindo cerca de 40 mil militares, estavam
na cidade. Grande parte da população e as vilas vizinhas
foram mobilizadas para estabelecer zonas contra um eventual incêndio.
Na época, Morita tinha 21 anos e era um jovem que se preparava
para enfrentar os desafios da vida. Só não imaginou que
eles seriam tão cruéis.
- Não
se esquece nunca dia 6 de agosto. Já se passaram mais de 60 anos,
parece que aconteceu ontem. Agora eu já 80 anos - relembra Takashi,
com o típico sotaque de um imigrante japonês.
Jovem e saudável
policial de estatura mediana, bochechas salientes e olhos amendoados,
Takashi chegou em Hiroshima uma semana antes do acontecimento que mudaria
a sua vida para sempre. Desceu na estação Teramaki, menos
de dois quilômetros do local da explosão. O policial, com
diversos colegas, caminhava em um bairro próximo ao centro, onde
deveria construir um abrigo para armamentos.
O relógio
marcava exatamente 8h15. Nesse momento, 6 mil metros acima de Hiroshima,
uma bomba de urânio lançada pelo bombardeiro B-29, batizado
como Enola Gay, detonou com a força de 15 mil toneladas de dinamite.
A temperatura se elevou a cerca de 3.000ºC.
- Não
esqueço o cheiro de... Como fala, né? Na noite de 6 de agosto,
eu estava na cidade mesmo, queimado. Cheiro não existe, não
pode falar. Não esquece esse cheiro. Não esquece.
No momento
da explosão, Morita estava de costas para o grande cogumelo
radiativo e foi isso que o salvou. No meio da escuridão,
não soube o que aconteceu. Andou a cidade inteira e viu cenas para
serem esquecidas. Um senhor com mais ou menos 50 anos, nu, com a pele
soltando e derretendo caminhava em sua direção. Gostaria
de perguntar o que tinha acontecido. Quando se aproximou, o homem caiu
morto.
-
Ajudei nos escombros. Normal, não é só eu. Todo mundo
mais pobrezinho. Também comida não tem, vida muito difícil.
Depois da bomba,
surgiram as grandes gotas em forma de chuva radiotiva, negra como tinta.
O policial pensou ser mais uma maldade dos americanos, que iriam jogar
óleo para depois queimar toda a população. Entretanto,
após a chuva preta, surgiram as gotas milagrosas que limparam toda
a cidade.
Os cadáveres
amontoados produziam um cheiro incômodo. Alguns sobreviventes amarravam
toalhas na boca e no nariz para minimizar o odor, mas como o cheiro ruim
persistia, também colocavam jornal. Nas ruas, por causa da desidratação,
as pessoas imploravam por água. O alívio de matar a sede
contrastava com a morte logo em seguida. Nas águas frias do Rio
Ota, contaminadas pela radiação, os japoneses corriam para
aliviar as dores das queimaduras.
A um raio de
três quilômetros do hipocentro - o solo diretamente abaixo
do local onde a bomba explodiu - nenhum edifício ficou em pé.
Setenta mil construções, entre hospitais, delegacias, agências
dos correios, escolas, casas e apartamentos, foram reduzidas a entulho.
Muitos corpos
ficaram tatuados com a tragédia da explosão.
A roupa branca evaporou, as roupas coloridas derreteram, porque absorveram
mais calor. Quem usava quimono tinha no corpo a marca estampada do tecido.
A roupa grossa da polícia militar protegeu Takashi Morita. A única
parte descoberta atingida foi a nuca.
Para tratar
da queimadura, Takashi ficou internado por quase dois meses no hospital.
Para a maioria dos médicos, a expectativa de vida de grande parte
dos sobreviventes não ultrapassaria dois anos. Afinal, ninguém
sabia como curar a tal radiação. Ao receber esta notícia,
muitos só esperavam a chegada da morte e desistiam de lutar pela
vida. Ele, no entanto, quis fazer a diferença. Ignorou a sentença
trágica do médico e resolveu batalhar.
Pegava doença,
depois dói, ninguém quer trabalhar mais. Muitos falam isso.
Hiroshima ninguém mora por 70 anos. Depois da bomba, a chuva entrou
em Hiroshima e Nagasaki e limpou a cidade. Por isso, já no mesmo
ano começou capim. E, se capim nasceu, acho que nossa vida também
poderia refazer. Entrei no hospital. Primeiro cabelo tudo saiu. Depois
pessoa cansada, sai mancha, cor diferente, dente tudo estraga, depois
saiu sangue e morre. Muitas pessoas. Graças a Deus, eu tive sorte
mesmo.
A rendição
do Japão ocorreu em 15 de agosto, nove dias depois do bombardeio.
As forças de ocupação enviaram o general americano
Douglas McArthur para dirigir o País em seu período de recuperação.
Pouco tempo depois, algumas escolas abriram seus portões, ainda
que de forma precária.
A ocupação
americana, que durou quase sete anos, rendeu uma série de reformas
estruturais e censura na parte cultural. Na realização de
filmes ou documentários, os diretores japoneses foram obrigados
a mostrar a bomba contextualizada, como um instrumento estratégico,
a única maneira de terminar a guerra.
Da mesma maneira,
os censores americanos enfatizaram, nos cenários de filmes nipônicos,
a significância militar dos alvos e eliminaram as referências
a civis feridos. Eles manipularam a opinião pública com
o intuito de formar uma associação de culpa, que o militarismo
japonês seria o responsável pela decisão americana
de usar a bomba.
- Não
é 20 mil ou 30 mil. Bastante pessoas morreram. Americano proibiu
de falar. É triste. Ainda vivo, por isso fala nunca mais fazer
Hiroshima e Nagasaki.
Muitos hibakusha
sentem que foram intencionalmente usados como cobaias dos Estados Unidos.
Certamente, a presença do principal estabelecimento médico
em Hiroshima depois da guerra, a Atomic Bomb Casualty Comission (ABBC),
do Pentágono, com sua política de pesquisa sobre os efeitos
da radiação sem tratamento, justificava tais suspeitas.
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