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Caderno Especial

62 anos depois...

(Texto: Kelly Nagaoka/NB | Fotos: Arquivo pessoal e Divulgação)

As duas maiores atrocidades humanas da história completam 62 anos em 2007. Durante a Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, os habitantes de Hiroshima e Nagasaki sofreram um terrível bombardeio dos Estados Unidos. Foram cerca de 214 mil mortes, em muitos casos, instantânea. Em Hiroshima, no dia 6, o avião Enola Gay lançou o Little Boy. Três dias depois, o alvo foi Nagasaki, conhecida como Nápoles do Oriente. O Fat Man caiu às 11 horas da manhã. E quem viveu de perto tudo isto foi Takashi Morita, hoje presidente da Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil. Abaixo, ele conta com detalhes esta experiência que deixou seqüelas graves nas futuras gerações da bomba atômica.

Após 62 anos, Takashi Morita ainda lembra de todos
os detalhes do dia 6 de agosto de 1945

Tudo estava queimado. Os poucos sobreviventes fugiam dos incêndios causados pela bomba atômica. O policial militar Takashi Morita não conseguia ajudar muito, pois também se encontrava machucado. Em Hiroshima, no calor insuportável, as moscas surgiam e colocavam seus ovos nas feridas dos sobreviventes. Dali brotavam larvas. Quando as vítimas morriam, as larvas saíam dos cadáveres e chegavam a encher três pás de lixo pequenas. Para aliviar os japoneses do exército de insetos, um mês e meio após a rendição, um avião americano jogou DDT sobre a cidade e, enfim, Hiroshima ficou livre deles. Livraram-se das moscas, mas depois os cabelos caíram, saíram manchas no rosto, os dentes sangraram e a maioria delas morreu. Vítimas que têm um nome específico: hibakusha. O sol forte, a radiação, a chuva negra, os mortos, os queimados; tudo aquilo tinha um cheiro único. Inesquecível.

Antes do bombardeio atômico em Hiroshima, Takashi já havia convivido com a morte: no ataque à base aérea de Hamamatsu, onde se dirigiu logo após ser convocado para trabalhar na manutenção dos aviões de guerra; na desnutrição pela falta de alimentos e na perseguição de um caça norte-americano no trem durante a viagem a Hiroshima. Ao freqüentar a escola de Polícia Militar em Nakano, Tóquio, presenciou os piores bombardeios que a capital japonesa sofreu, principalmente em 13 de maio, quando mais de cem mil pessoas morreram.


O policial Takashi sobreviveu à bomba atômica em 1945

Takashi Morita é presidente da Associação de Vítimas da Bomba Atômica no Brasil

Takashi não queria vivenciar tudo aquilo, então resolveu fugir das bombas incendiárias que caíam na capital japonesa para estar mais próximo dos pais. Pouco tempo depois, na madrugada de uma segunda-feira, percebeu algo diferente. Às 0h25, soou o alarme de incursão aérea. Era o aviso que uma aeronave inimiga iria lançar bombas. Não houve ataque, e o alarme foi cancelado às 2h10. Após um curto período de sono, às 7h09, o povo acordou novamente com um sinal amarelo de alerta indicando a aproximação de aeronave inimiga. Começava o dia 6 de agosto de 1945.

Muitos correram para os refúgios antiaéreos. Como era apenas um avião norte-americano voando a uma grande altitude, o alarme foi cancelado às 7h31. Os residentes abandonaram os abrigos e dirigiram-se ao trabalho. Mais de 350 mil pessoas, incluindo cerca de 40 mil militares, estavam na cidade. Grande parte da população e as vilas vizinhas foram mobilizadas para estabelecer zonas contra um eventual incêndio. Na época, Morita tinha 21 anos e era um jovem que se preparava para enfrentar os desafios da vida. Só não imaginou que eles seriam tão cruéis.

- Não se esquece nunca dia 6 de agosto. Já se passaram mais de 60 anos, parece que aconteceu ontem. Agora eu já 80 anos - relembra Takashi, com o típico sotaque de um imigrante japonês.

Jovem e saudável policial de estatura mediana, bochechas salientes e olhos amendoados, Takashi chegou em Hiroshima uma semana antes do acontecimento que mudaria a sua vida para sempre. Desceu na estação Teramaki, menos de dois quilômetros do local da explosão. O policial, com diversos colegas, caminhava em um bairro próximo ao centro, onde deveria construir um abrigo para armamentos.

O relógio marcava exatamente 8h15. Nesse momento, 6 mil metros acima de Hiroshima, uma bomba de urânio lançada pelo bombardeiro B-29, batizado como Enola Gay, detonou com a força de 15 mil toneladas de dinamite. A temperatura se elevou a cerca de 3.000ºC.

- Não esqueço o cheiro de... Como fala, né? Na noite de 6 de agosto, eu estava na cidade mesmo, queimado. Cheiro não existe, não pode falar. Não esquece esse cheiro. Não esquece.

No momento da explosão, Morita estava de costas para o grande “cogumelo radiativo” e foi isso que o salvou. No meio da escuridão, não soube o que aconteceu. Andou a cidade inteira e viu cenas para serem esquecidas. Um senhor com mais ou menos 50 anos, nu, com a pele soltando e derretendo caminhava em sua direção. Gostaria de perguntar o que tinha acontecido. Quando se aproximou, o homem caiu morto.

- Ajudei nos escombros. Normal, não é só eu. Todo mundo mais pobrezinho. Também comida não tem, vida muito difícil.

Depois da bomba, surgiram as grandes gotas em forma de chuva radiotiva, negra como tinta. O policial pensou ser mais uma maldade dos americanos, que iriam jogar óleo para depois queimar toda a população. Entretanto, após a chuva preta, surgiram as gotas milagrosas que limparam toda a cidade.

Os cadáveres amontoados produziam um cheiro incômodo. Alguns sobreviventes amarravam toalhas na boca e no nariz para minimizar o odor, mas como o cheiro ruim persistia, também colocavam jornal. Nas ruas, por causa da desidratação, as pessoas imploravam por água. O alívio de matar a sede contrastava com a morte logo em seguida. Nas águas frias do Rio Ota, contaminadas pela radiação, os japoneses corriam para aliviar as dores das queimaduras.

A um raio de três quilômetros do hipocentro - o solo diretamente abaixo do local onde a bomba explodiu - nenhum edifício ficou em pé. Setenta mil construções, entre hospitais, delegacias, agências dos correios, escolas, casas e apartamentos, foram reduzidas a entulho.

Muitos corpos ficaram “tatuados” com a tragédia da explosão. A roupa branca evaporou, as roupas coloridas derreteram, porque absorveram mais calor. Quem usava quimono tinha no corpo a marca estampada do tecido. A roupa grossa da polícia militar protegeu Takashi Morita. A única parte descoberta atingida foi a nuca.

Para tratar da queimadura, Takashi ficou internado por quase dois meses no hospital. Para a maioria dos médicos, a expectativa de vida de grande parte dos sobreviventes não ultrapassaria dois anos. Afinal, ninguém sabia como curar a tal radiação. Ao receber esta notícia, muitos só esperavam a chegada da morte e desistiam de lutar pela vida. Ele, no entanto, quis fazer a diferença. Ignorou a sentença trágica do médico e resolveu batalhar.

Pegava doença, depois dói, ninguém quer trabalhar mais. Muitos falam isso. Hiroshima ninguém mora por 70 anos. Depois da bomba, a chuva entrou em Hiroshima e Nagasaki e limpou a cidade. Por isso, já no mesmo ano começou capim. E, se capim nasceu, acho que nossa vida também poderia refazer. Entrei no hospital. Primeiro cabelo tudo saiu. Depois pessoa cansada, sai mancha, cor diferente, dente tudo estraga, depois saiu sangue e morre. Muitas pessoas. Graças a Deus, eu tive sorte mesmo.

A rendição do Japão ocorreu em 15 de agosto, nove dias depois do bombardeio. As forças de ocupação enviaram o general americano Douglas McArthur para dirigir o País em seu período de recuperação. Pouco tempo depois, algumas escolas abriram seus portões, ainda que de forma precária.

A ocupação americana, que durou quase sete anos, rendeu uma série de reformas estruturais e censura na parte cultural. Na realização de filmes ou documentários, os diretores japoneses foram obrigados a mostrar a bomba contextualizada, como um instrumento estratégico, a única maneira de terminar a guerra.

Da mesma maneira, os censores americanos enfatizaram, nos cenários de filmes nipônicos, a significância militar dos alvos e eliminaram as referências a civis feridos. Eles manipularam a opinião pública com o intuito de formar uma associação de culpa, que o militarismo japonês seria o responsável pela decisão americana de usar a bomba.

- Não é 20 mil ou 30 mil. Bastante pessoas morreram. Americano proibiu de falar. É triste. Ainda vivo, por isso fala nunca mais fazer Hiroshima e Nagasaki.

Muitos hibakusha sentem que foram intencionalmente usados como cobaias dos Estados Unidos. Certamente, a presença do principal estabelecimento médico em Hiroshima depois da guerra, a Atomic Bomb Casualty Comission (ABBC), do Pentágono, com sua política de pesquisa sobre os efeitos da radiação sem tratamento, justificava tais suspeitas.

"Depois da bomba, a chuva caiu em Hiroshima e Nagasaki e limpou a cidade. Por isso, já no mesmo ano começou a crescer o capim. E, se o capim nasceu, acho que nossa vida também poderia refazer "













 

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