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Caderno Especial

Mangá: Uma das marcas da sociedade japonesa
As histórias em quadrinhos no Japão são uma diversão
barata e criativa para todas as idades, mesclando fantasia com um toque quase sempre intimista

Uma cena de A Viagem de Chihiro

Acima, o casal protagonista de Kareshi Kanojo no Jijo e, abaixo, EVA01, de Neo Genesis Evangelion, dois exemplos de animês cult

(Imagens: Divulgação)

Dentro de trens, em livrarias, cafés. Para um turista estrangeiro, certamente desavisado, observar japoneses de várias idades, executivos, estudantes e senhoras, muitas vezes lendo um mangá enquanto utilizam o transporte público ou estão em locais apropriados, é quase um susto. Para o Ocidente, ler histórias em quadrinhos é uma marca da infância ou um hábito que, na fase adulta, demonstra infantilidade. No entanto, para um país que possui editorias tão bem definidas, atendendo ao seu público de maneira abrangente e estrategicamente elaborada, essa “visão de mundo” não se aplica.

No Japão, ler mangá é uma diversão barata e eficaz. Fala diretamente com seu público e possui uma linguagem dinâmica, iconográfica, no sentido lingüístico e estrutural, com cenas baseadas em jogos de câmeras vistos no cinema. Publicações semanais como a Shounen Jump, uma revista especializada para o público masculino (veja quadro “As revistas mais famosas do Japão), chegam a vender cerca de 3 milhões de exemplares a cada semana.

Os mangás que hoje influenciam o mundo inteiro em campos como o próprio cinema, a publicidade e até quadrinhistas estrangeiros são unanimidade no arquipélago. Estão em propagandas, campanhas educativas e até os postos de polícia de cada cidade tem sua mascote baseada em mangá.

Grande parte, senão a totalidade desse fenômeno, deve-se a uma geração artistas japoneses que, após a Segunda Guerra Mundial, repensaram o mangá e aplicaram as influências recebidas do exterior, criando uma leitura que dialogava perfeitamente com o público em formação na época. Seus maiores expoentes são Osamu Tezuka e Hayao Miyasaki.

Osamu fez do mangá uma arte, colocando o ser humano com profundidade em um sentido pragmático e que, até hoje, encanta pessoas do mundo inteiro. Um apaixonado por seu trabalho, que trocou a medicina pelos acetatos e tintas. Tudo isso, além de recriar enquadramentos e fluência da narrativa, dando aos personagens sentimentos complexos, discutindo questões existenciais.

Hayao, por sua vez, revolucionou a linguagem do cinema de animação, com produções que atraem todo o Japão e que entraram no circuito internacional. Um reconhecimento tardio para uma obra tão importante.

De Tezuka até os dias de hoje, muita coisa mudou. As mulheres entraram no mercado como profissionais e tiveram sua parcela de influência. Riyoko Ikeda, com Versailles no Bara (A Rosa de Versailles) marcou a década de 1970 e, até hoje, é uma das mais aclamadas desenhistas de mangá feminino do Japão. Enredos, estilos de narrativas e até enquadramentos de página evoluíram tanto que o mangá adquiriu uma especificidade artística ímpar.

(*Colaboração: Daniela Karasawa/NB)

 
As revistas mais famosas do Japão

No topo, Shounen Jump, voltada para o público masculino; acima, Bessatsu Friend, leitura para garotas

As revistas de mangá são o ponto de partida para um grande sucesso no arquipélago. Fazendo sucesso em títulos como Nakayoshi, LaLa, Shounen Jump ou Afternoon, um mangá tem o passe livre para a TV, os games e toda a sorte de brinquedos, materiais de papelaria e até roupas.

Essas revistas, que mais parecem listas telefônicas, são impressas em papel jornal e quase sempre utilizam um número de cores para os cadernos internos que variam do vermelho ao roxo, passado pelo azul, verde e o consagrado preto. Após saírem nessas publicações, os mangás de maior sucesso tornam-se tankohon, uma compilação dos últimos capítulos em formato de bolso e impresso em papel de qualidade. A tiragem de uma revista de mangá é quase sempre na casa dos milhões de exemplares.

Como esse número é muito grande e o hábito de guardar essas revistas não existe, afinal, com a praticidade do tankohon, a publicação maior vai para o lixo após a leitura, o país tem programas de reciclagem desse material. O mangá vira mangá quase sempre.

Os clássicos no Brasil e a expansão do mercado

No topo, Cavaleiros do Zodíaco; acima, Patrulha Estelar

O Brasil recebeu os mais importantes títulos de animê (animação japonesa) durante as últimas décadas. Vários marcaram a história da TV brasileira, como Patrulha Estelar (Uchuu Senkan Yamato, 1970), que, na década de 1980, foi transmitido pela extinta TV Manchete, emissora que ficou conhecida nacionalmente por trazer produções japonesas. Em 1994, a emissora exibiu Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986), animê que provocou comoção nacional. Mesmo criticada pela imprensa por suposta exagerada violência, a produção teve tamanho sucesso que, recentemente, a série ganhou uma nova dublagem e está à venda em DVD.

Para Fernando Mucioli, redator-chefe do site Gametv, o mercado brasileiro está crescendo em ritmo acelerado e se profissionalizando. “Ainda há trabalhos de edição e dublagens lamentáveis que acabam estragando ótimas séries, mas isso será corrigido com o tempo.” Fernando completa sua visão do mercado brasileiro dizendo acreditar no potencial de investimento do setor, “O público jovem vive aberto para as novidades do Japão e qualquer coisa nesse sentido é bem-vinda. Porém, todo cuidado é pouco. Da mesma maneira que o público abraça coisas novas, ele as repudia com a mesma facilidade.”

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