|
(Ilustração:
Claudio Seto)
Geralmente,
a pintura com tinta nanquim é feita sobre papel próprio
para pintura ou caligrafia, ou ainda sobre tecido de seda, em cuja superfície
são explorados os efeitos de penetração da tinta
no material e variações de tonalidades escuras e claras;
o tema é desenhado com traços simplificados. É uma
modalidade da pintura que não recorre a cores, mas somente à
mistura da tinta com a água. A pintura à tinta nanquim de
hoje não mudou com relação a antigamente quanto aos
temas como paisagens ou elementos da natureza, mas dizem que, hoje, expressa
muito pouco as lutas contra as severidades da natureza ou as idéias
individuais. Os críticos apontam como causas dessa mudança
a pobreza espiritual da sociedade atual, ou a personalidade
ou senso de beleza dos japoneses que expressam o lado gentil da natureza,
etc.
Quem consolidou
a pintura à tinta nanquim no Japão foi Sesshû, nascido
em Akahama, província de Okayama. Ele desenhava desde criança.
De sua infância até cerca de 48 anos de idade, não
se sabe ao certo sobre sua história, até que o ponto em
que ele adotou o nome de Sesshû. Aos 12 anos, o artista ingressou
no Templo Hôfukuji, a fim de se tornar monge. É conhecido
o episódio que ali se passou, durante o seu treinamento espiritual.
O
rato
Dizem que,
no templo, sempre que tinha tempo livre, ele desenhava, ao invés
de ler sutras. Por esse motivo, foi repreendido pelo monge e, certo dia,
foi amarrado a um pilar. Depois de algumas horas, o monge foi vê-lo
e constatou que ele estava dormindo. O monge aproximou-se, pensando: É
apenas uma criança.... Foi quando percebeu que, perto dele,
havia um rato imóvel. Por mais que o expulsasse, o rato não
saía de lá. O monge, achando isso estranho, perguntou a
Sesshû, que despertara. Ele respondeu que, quando foi repreendido,
chorou e suas lágrimas escorreram pelas pernas e caíram
no chão formando o desenho do rato.
O monge, então,
reconheceu sua genialidade e o enviou para estudar no Templo Shôkokuji
do zen-budismo, o qual era renomado dentre os templos considerados centros
de cultura e arte da época. Ali, Sesshû conheceu pintores
renomados, como Shûbun (seguidor oficial da pintura a nanquim da
China) e Josetsu, de quem se presume ter aprendido sobre pinturas. Quando
tinha passado dos 40 anos de idade, Sesshû foi à atual província
de Yamaguchi, na época chamada de Shôkyôto, próspera
devido ao comércio exterior com a China (Ming), recebendo proteção
do senhor Ouchi, senhor feudal daquela localidade. Lá, dedicou-se
à pintura à tinta nanquim. Em 1467, quando ocorreu a Revolta
de Ônin (que terminou em 1477), que dividiu o Japão em dois,
foi a Pequim, na China (Ming), num navio enviado pelo governo feudal,
aprendendo, naquela região, a genuína pintura à tinta
nanquim da China durante 2 anos.
Pintura
como arte independente
Nas pinturas
à tinta nanquim da época, havia, na parte superior do quadro,
um poema chinês de autoria de um monge zen-budista. A literatura
e a pintura eram apreciadas em conjunto, de forma que a pintura não
era algo independente. Dizem que foi mérito de Sesshû ter
tornado a pintura independente da literatura e conceituado a pintura como
algo que, por si próprio, merece ser apreciado. Dizem que: A
composição robusta, a enorme sensação de estabilidade,
a sensação de volume que pode ser sentida nas menores pedras
e a clareza da tela são a condensação do grandioso
mundo com base na visão que ele tem sobre o mundo.
Após
regressar ao país, Sesshû continuou a pintar junto do senhor
feudal Ouchi. Recebeu o chamado do xogum Ashikaga Yoshimasa (14361490),
mas recusou, escolhendo o caminho de pintar livremente, sem se prender
a status ou ao poder financeiro, atuando não em Quioto, mas em
metrópoles regionais, terminando sua vida aos 86 anos.
Sesshû
transformou a pintura à tinta nanquim uma técnica
originariamente chinesa , tornando-a uma arte japonesa; e pintou
de forma original a natureza e o homem. Foi um pioneiro moderno, que tentava
libertar a natureza humana dentro do mundo artístico diversificado,
como cerimônias do chá, arte de arranjos florais, teatro
Nô e outros que estiveram em voga no século XV.
|