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Caderno Personalidades do Japão

Ano: 1420–1506
Sesshû

(Ilustração: Claudio Seto)

Geralmente, a pintura com tinta nanquim é feita sobre papel próprio para pintura ou caligrafia, ou ainda sobre tecido de seda, em cuja superfície são explorados os efeitos de penetração da tinta no material e variações de tonalidades escuras e claras; o tema é desenhado com traços simplificados. É uma modalidade da pintura que não recorre a cores, mas somente à mistura da tinta com a água. A pintura à tinta nanquim de hoje não mudou com relação a antigamente quanto aos temas como paisagens ou elementos da natureza, mas dizem que, hoje, expressa muito pouco as lutas contra as severidades da natureza ou as idéias individuais. Os críticos apontam como causas dessa mudança a “pobreza espiritual da sociedade atual”, ou a “personalidade ou senso de beleza dos japoneses que expressam o lado gentil da natureza”, etc.

Quem consolidou a pintura à tinta nanquim no Japão foi Sesshû, nascido em Akahama, província de Okayama. Ele desenhava desde criança. De sua infância até cerca de 48 anos de idade, não se sabe ao certo sobre sua história, até que o ponto em que ele adotou o nome de Sesshû. Aos 12 anos, o artista ingressou no Templo Hôfukuji, a fim de se tornar monge. É conhecido o episódio que ali se passou, durante o seu treinamento espiritual.

O rato

Dizem que, no templo, sempre que tinha tempo livre, ele desenhava, ao invés de ler sutras. Por esse motivo, foi repreendido pelo monge e, certo dia, foi amarrado a um pilar. Depois de algumas horas, o monge foi vê-lo e constatou que ele estava dormindo. O monge aproximou-se, pensando: “É apenas uma criança...”. Foi quando percebeu que, perto dele, havia um rato imóvel. Por mais que o expulsasse, o rato não saía de lá. O monge, achando isso estranho, perguntou a Sesshû, que despertara. Ele respondeu que, quando foi repreendido, chorou e suas lágrimas escorreram pelas pernas e caíram no chão formando o desenho do rato.

O monge, então, reconheceu sua genialidade e o enviou para estudar no Templo Shôkokuji do zen-budismo, o qual era renomado dentre os templos considerados centros de cultura e arte da época. Ali, Sesshû conheceu pintores renomados, como Shûbun (seguidor oficial da pintura a nanquim da China) e Josetsu, de quem se presume ter aprendido sobre pinturas. Quando tinha passado dos 40 anos de idade, Sesshû foi à atual província de Yamaguchi, na época chamada de Shôkyôto, próspera devido ao comércio exterior com a China (Ming), recebendo proteção do senhor Ouchi, senhor feudal daquela localidade. Lá, dedicou-se à pintura à tinta nanquim. Em 1467, quando ocorreu a Revolta de Ônin (que terminou em 1477), que dividiu o Japão em dois, foi a Pequim, na China (Ming), num navio enviado pelo governo feudal, aprendendo, naquela região, a genuína pintura à tinta nanquim da China durante 2 anos.

Pintura como arte independente

Nas pinturas à tinta nanquim da época, havia, na parte superior do quadro, um poema chinês de autoria de um monge zen-budista. A literatura e a pintura eram apreciadas em conjunto, de forma que a pintura não era algo independente. Dizem que foi mérito de Sesshû ter tornado a pintura independente da literatura e conceituado a pintura como algo que, por si próprio, merece ser apreciado. Dizem que: “A composição robusta, a enorme sensação de estabilidade, a sensação de volume que pode ser sentida nas menores pedras e a clareza da tela são a condensação do grandioso mundo com base na visão que ele tem sobre o mundo.”

Após regressar ao país, Sesshû continuou a pintar junto do senhor feudal Ouchi. Recebeu o chamado do xogum Ashikaga Yoshimasa (1436–1490), mas recusou, escolhendo o caminho de pintar livremente, sem se prender a status ou ao poder financeiro, atuando não em Quioto, mas em metrópoles regionais, terminando sua vida aos 86 anos.

Sesshû transformou a pintura à tinta nanquim – uma técnica originariamente chinesa –, tornando-a uma arte japonesa; e pintou de forma original a natureza e o homem. Foi um pioneiro moderno, que tentava libertar a natureza humana dentro do mundo artístico diversificado, como cerimônias do chá, arte de arranjos florais, teatro Nô e outros que estiveram em voga no século XV.


* Esta página foi produzida pelas professoras Akiko Kurihara, Hiroko Nishizawa e Kurenai Nagahama. Tradução: Akiko Kurihara, Clara Kazuko Sakai e Arísia Noguchi.

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