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Opinião - Edição 525 - Jornal NippoBrasil

As heranças da crise financeira mundial

Marcos Morita*

A crise financeira mun-dial, representada simbolicamente pela quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, está prestes a completar um ano. Economistas apregoam cenários azuis, cinzas e até negros. As opiniões dividem-se. Os otimistas dizem que a crise já é coisa do passado; os céticos, que ainda é cedo para comemorar; e os pessimistas, que ainda há outro fundo do poço a se atingir.

Independentemente de quem estiver certo, como estudioso de estratégias empresariais, posso avaliar algumas heranças deixadas a empresas e empresários que sofreram com esse turbulento período. Em linhas gerais, posso dizer que a principal lição aprendida foi a da importância da p.a.c.i.ê.n.c.i.a na condução dos negócios. A economia aquecida, o consumo desenfreado e a oferta de crédito abundante dos últimos anos fizeram com que ela fosse deixada de lado em muitas ocasiões. Vejamos, então, letra a letra o significado dessa estratégica palavra.

Quem se ocuparia em planejar, numa situação em que qualquer produto oferecido era vendido aos milhares? Agora, com tempo de sobra e um cenário bem menos generoso, os gerentes avaliam os impactos causados pela retração econômica em sessões exaustivas de planejamento. Coisa que havia ficado em segundo plano quando tudo ia tão bem.

Vendia-se tudo sem distinção. Construção, indústrias, varejo, comércio, ninguém tinha a preocupação em conhecer as características específicas de cada mercado. A crise, porém, afetou de maneira diferenciada os setores da economia, obrigando as empresas a analisar as necessidades particulares de cada segmento.

E quando só há boas notícias, só há um cenário, o otimista. Os empresários contaminados por este clima de bem-aventuranças se esqueceram de criar planos de contingências para eventuais mudanças de rumo. O vento mudou e as empresas tiveram que conviver com cenários bem distintos dos que eram previstos. A lição que fica aqui é que, por melhores que as coisas estejam, elas podem mudar. Por isso, tenha sempre um plano B.

Produtos medianos e serviços medíocres encontravam espaço para se manter vivos. Com a diminuição da oferta, muitos já fecharam as portas ou o farão em breve. A inovação por meio de produtos ou serviços é a chave da sobrevivência. No entanto, parece que muita gente se esqueceu disso. E agora sofrem.

Para que um canal funcione de maneira adequada, os consumidores puxam as mercadorias, enquanto os fabricantes empurram. Com a chegada da crise, consumidores pararam de puxar enquanto fabricantes ainda empurravam os últimos pedidos, aumentando os estoques e a inadimplência dos canais. Os fabricantes aprenderam a duras penas que gerenciar estoques é a única garantia de recebimento.

Executivos deixaram carreiras consolidadas e posições confortáveis, aproveitando o bom momento para aumentar seu pacote de benefícios. Hoje, alguns desses profissionais procuram novas oportunidades, considerando boa opção o salário que tinham na antiga empresa. Aqueles que mantiveram seu networking, ou rede de relacionamentos, estão mais preparados para se recolocar em tempo de vacas magras.

Viagens em classe executiva, jantares com clientes, confraternizações são luxos de um passado recente. O assunto do momento é o controle de custos, sejam eles variáveis, sejam fixos. Apesar da redução nas contratações, controllers continuam em alta. Quem aproveitou, aproveitou.

Outro assunto da moda são os indicadores. Produtividade, cobertura de mercado, penetração, adoção, contas a receber, giro de inventário, retorno sobre investimento, prazo médio de pagamento, inadimplência. Ferramentas excelentes, reincorporadas à força ao vocabulário de muitos executivos não financeiros.

No afã de venderem cada vez mais, muitas empresas se distanciaram do mercado e de seus consumidores. Deixaram de perceber que as redes so-ciais são ótimas ferramentas para que as empresas estejam antenadas com seu público-alvo, antecipando tendências e utilizando suas críticas e sugestões para corrigir a rota a-tual e até para descobrir novas. Tudo rápido e on-line.

Por mais doloroso que tenha sido para alguns, a tal p.a.c.i.ê.n.c.i.a foi crucial para a superação desse momento tão conturbado. Toda situação difícil sempre nos traz a oportunidade de aprender. Crises são ímpares para se refletir, analisar, tirar planos da gaveta, mudar. Aos que não quiseram aproveitar para amadurecer, só resta desejar que tenham p.a.c.i.ê.n.c.i.a.




*Mestre em Administração
de empresas e professor da
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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